Editora____________________Editora
Disponibilidade_____________Disponibilidade
Diagramação
Valderes Barboza
Aos colegas da Universidade de Brasília que ministram, entre outros, o curso de
Língua portuguesa I, agradeço por terem usado, sob a forma de instrumentos de
trabalho, o material aqui exposto, o que me permitiu avaliar a validade dos con-
ceitos.
ESCLARECIMENTO
As idéias expressas neste livro não se fecham em si mesmas. Por isso, o uso de
bibliografia adequada e coerente se faz obrigatório sempre que se precisar de in-
formação mais detalhada sobre o assunto em estudo. O livro a ser lido vem, por
conseguinte, indicado imediatamente após o conteúdo reativo, no corpo do
material.
Sumário
Introdução, 9
PRIMEIRA PARTE
1. Com a intenção de ler, 13
1. A escolha do texto, 13
2. Tipos de leitura, 14
II. Texto e entendimento, 23
1. Capacidades cognitivas, de acordo com
Bloom, 23
2. Plano de texto expositivo, 27
III. Palavra e vocábulo: unidades essenciais de
texto, 31
1. Uso de palavra e vocabulário, 36
2. Vocabulário e campo lexical, 40
3. Sinonímia e hiponímia, 42
4. Estrutura de vocábulo em campo lexical, 44
5. Exatidão e adequação vocabular, 49
IV. Produção do texto: a dissertação, 50
1. O texto expositivo-dissertativo, 52
2. O texto dissertativa-argumentativo, 59
3. Recursos apropriados para a elaboração
do texto dissertativo, 69
SEGUNDA PARTE
V. Sintaxe de construção, 81
VI. A vírgula no contexto sintático, 92
VII. Conversando sobre crase, 99
VIII. Temas sugeridos para redação, 106
Bibliografia auxiliar, 115
Introduçâo
- nota da ledora: numeração encontra-se sempre ao pé da página. - fim da nota
da ledora.
Produzir texto é uma das tarefas mais complexas, tanto para quem pretende
ensiná-la como para aquele que, na sala de aula, todos os dias, dispõe-se a
aprendê-la. De fato, não existe uma receita infalível para tal, bem como os
modelos os quais nos dispomos a demonstrar dependem muito mais da
recepção do leitor que de uma cópia ipsís verbís do que se diz ou informa.
Neste trabalho, partimos do princípio de que redigir exige requisitos próprios,
tais como, saber ler e saber entender. Assim sendo, em um primeiro momento,
qualquer redator deve motivar-se a partir da leitura de bons textos para, com
base no "velho", criar o novo. Ele deve saber que, só depois do entendimento
das idéias as quais vai expor, é-lhe possível extrapolar e criar seu texto, segundo
um plano pré-elaborado, uma vez que todas as nossas ações corriqueiras são
normalmente planejadas. A escrita é, pois, um ato corriqueiro. No a escola a
transforma quase sempre em um momento solene.' o da hora da aula de redação;
eventualmente esta se transforma em uma punição,
9
do tipo "já que faltou o professor da disciplina X, podemos manter os alunos em
sala mandando fazer uma redação". Está certo isso? - pergunta-se.
Redigir é dizer a outrem o que se pensa.
Ao conversar, está-se como que redigindo oralmente; ao escrever uma carta, de
qualquer natureza, está-se redigindo; ao resolver um problema de matemática, de
fisica, de biologia, está-se redigindo;_ao escrever uma estória. uma descrição de
cena ou de objeto e ao defender um ponto de vista, está-se redigindo. Convém
observar, todavia, que cada uma das situações enumeradas anteriormente exige
uma forma de texto e, assim, cada texto terá a silhueta devida.
Em Como ler, entender e redigir um texto, propomo-nos a informar nosso leitor
de como ler texto técnico, entender as idéias do texto, extrapo-las e redigir com
segurança. Redigir pode ser arte, mas requer, antes de tudo, técnica. Sobre o
assunto, a bibliografia em língua portuguesa é bastante numerosa; apesar disso,
arvoramo-nos a escrever este, em que se defende o ponto de vista de que, para
chegar-se ao produto redação, deve-se conhecer passo a passo o processo que
lhe antecede, sem o medo daquilo que nunca foi "bicho-" e muito menos "-
papão": a redação.
10
PRIMEIRA PARTE
1
Com a intenção de ler
1. A ESCOLHA DO TEXTO
Leitura pressupõe busca de informação. Por isso e importante escolher bem o
texto para ler.
Para que o leitor se informe é necessário que haja entendimento daquilo que ele
lê. Ha' textos cujo assunto é inteiramente inteligível ao leitor, como os de jornais,
revistas não especializadas etc. Há outros, porém, que a pessoa tenta ler, já
sabendo, a princípio, que não entende completamente seu conteúdo. Neste
último caso o leitor deve estar predisposto a superar essa dificuldade.
A desigualdade de entendimento se manifesta principalmente quando se tem de
"mergulhar" numa leitura criteriosa de texto técnico. Ocorre que, ou se lê um
texto dessa natureza como se estivesse lendo um periódico distrativamente, ou
se tenta ler visando a um entendimento, sem saber, muitas vezes, como proceder
para não perder tempo, sem saber a que cânones obedecer.
13
2 TIPOS DE LEITURA
A intenção de ler bem o texto técnico conduz o leitor a dois tipos de leitura:
2.1. Leitura informativa
Ao se fazer leitura informativa busca-se respostas a questões específicas. Para
obtê-las deve-se:
2.1.1. FAZER LEITURA SELETIVA
Esse tipo se efetiva no momento em que o leitor sabe escolher as idéias
pertínentes que complementem o ponto de vista do autor. Para isso é preciso:
2.1.1.1. Identificar, dentro de cada parágrafo, a palavra-chave, pois é em torno
dela que o autor normalmente desenvolve a idéia principal. A palavra-chave se
situa na sentença-tópico, que, quase sempre, é a primeira frase do parágrafo,
como, por exemplo:
O reflorestamento tornou-se uma atividade em expansão no país, servida por
pesquisas minuciosas e alta tecnologia. Duas empresas paulistas exemplificam
bem até que ponto chegou o desenvolvimento no setor. Uma delas exporta, para
40 paises, cerca de 15 milhões de dólares anuais de chapas, portas e divisórias.
A outra, 20 milhões de dólares em chapas e fibra prensada para os Estados
Unidos e a Europa. O faturamento bruto das indústrias que utilizam madeira (pre-
dominantemente oriunda de reflorestamentos) como matéria-prima chegou a um
terço do faturamento bruto da indústria automobilística. Apenas uma empresa
mineira plantou, até 1979, 250 milhões de eucaliptos.1
1 DESED 70. Banco do Brasil S.A., mai/jun 1980.
14
Neste parágrafo, a palavra-chave é reflorestamento, porque é ela que constituí o
núcleo da idéia do autor e serve de base para que se derive um grupo vocabular
em que todas as outras unidades estejam em relação de inclusão com ela:
reflorestamento : atividade em - pesquisas minuciosas expansão
desenvolvImento chapas portas divísórias faturamento alta tecnologia eucalipto
fibra prensada matéria-prima madeira
Reflorestamento funciona como núcleo do sujeito da sentença-tópico, que é:
As outras unidades vocabulares, de acordo com o sentido que possuem no texto,
convergem para reflorestamento, formando, assim, um conjun-
15
to vocabular que, esquematicamente, sintetiza as idéias ali expostas. Para melhor
compreender as noções de sentença-tópico, leia GARCIA, Othon M. comunicação
em prosa moderna. Rio, FGV, 1980, terceira parte, cap. 1.
2. .1.2. Selecionar, uma vez identificada a palavra-chave principal do parágrafo,
as palavras-chave secundárias, que são as que estruturam as frases que
fundamentam a sentença-tópico e desenvolvem o parágrafo, como no exemplo
seguinte:
Um livro é um artefato físico produzido apenas numa sociedade civilizada. As
implicações dessa afirmação incluem muitos aspectos históricos. Antes que um
autor possa escrever, precisa possuir linguagem e um sistema gráfico para re-
gistrá-lo. Nenhuma dessas coisas é invenção sua. Ambas, como já notamos, não
passam de convenções arbitrárias da cultura; ambas chegaram ás suas formas
como resultado de uma longa evolução. Do mesmo modo, a forma do livro
através das épocas e os vários métodos de sua fabricação são problemas
históricos básicos para a ciência da bíblioteconomia. Aqui devem considerar-se
não apenas os materiais físicos que foram usados para a recepção dos registros
gráficos, mas seus reflexos sobre a utilidade funcional. Tijolos de barro, peles
curtidas e papiro, cada um apresenta uma diferente combinação de economia,
facilidade de transporte e durabilidade. A lousa, o rolo e o códex divergem muito
em suas facilidades de fornecer referências. O crescimento dos aspectos
auxiliares do leitor, como lombada da capa, página-título, índice de conteúdo,
paginação e índice alfabético resultam de um longo processo evolutivo. 2
Neste parágrafo, a palavra-chave principal é livro e as palavras-chave
secundárias são: autor, escrever, linguagem, sistema gráfico (continue:).
2 BUTLER, P Introdução à ciência da biblioteconomia. Rio. Lidador, 1971, p. 59-
60.
16
Observe-se que a escolha vocabular não se faz aleatoriamente, mas justificada
por uma seleção vocabular que dá apoio à idéia principal do autor. Para melhor
compreensão desse assunto leia GARCIA, Othon M., op. czt., segunda parte, cap.
III. Um parágrafo que apresente esta unidade, esta coerência, diz-se ser um
parágrafo didático, com sentença-tópico e desenvolvimento. Para melhor com-
preensão desse assunto leia GARCIA, Othon M., op. cit., terceira parte, cap. II.
2.1.1.3. Selecionar, na sequência do texto, as sentenças-tópico que constituem,
de fato, base de informação de cada parágrafo e que, depois de escolhidas,
sublinhadas ou destacadas, formam o resumo do texto:
PSICÓLOGA NÃO VÊ RELAÇÃO ENTRE A VIOLÊNCIA E A TV
Pesquisa da Faculdade de medicina de Juiz de Fora revelou que não se pode
relacionar, como é feito, a televisão e o rádio com a violência. Segundo alguns,
estes dois meios de comunicação seriam propagadores e incentivadores da vio-
lência. De acordo com a pesquisa, elaborada junto a menores da Febem daquela
cidade mineira, 68% dos delinqüentes Juvenis nunca haviam assistido a um
programa seja de rádio, seja de televisão - afirmou Goldberg, especialista em
pesquisas junto à infância e adolescência.
A gênese da violência urbana, de acordo com o cientista, localiza-se entre as
diferenças que caracterizam o meio rural e urbano. "Freqüentemente , ocorre um
choque nos hábitos migrantes no seu contato com a cidade. Mudam-se as suas
referências culturais e o seu comportamento. O choque é, também, recíproco. O
habitante da cidade se sente ameaçado, compelido a competir mais onde a
concorrência já é acirrada, gerando medo insatisfação e frustração", diz o psi-
cólogo.
17
A desinformação cultural é a grande responsável pela explosão de violência nas
cidades, segundo Goldberg. "A sociedade moderna exige do habitante da
metrópole alta dose de Informação - desconhecida do migrante. Este passa a
buscá-la, mas a sociedade não permite um acesso fácil a ela. Isto gera frustração,
num primeiro momento que, acumulado, redunda na revolta", argumenta o
pesquisador.
Em seu entender, a problemática da violência e da desinformação decorrem da
estrutura do ensino brasileiro. De acordo com dados de uma pesquisa que
efetuou em Juiz de Fora, 75% dos estudantes primários que completavam um
ano de estudo no grupo central da cidade não tinham condições sequer de
escrever o próprio nome. 3
Diga onde começa e onde termina a sentença-tópico de cada parágrafo:
1º § vai de até
2º § vai de até
3º. § vai de até
4º § - vai de até
assim:
Este texto pode, portanto, ser resumido
Para melhor compreensão do resumo leia SALOMON- Délcio V. Como lazer uma
monografia. Belo Horizonte, Interlivros, 1978, primeira parte, cap. III.
2.1.2. FAZER LEITURA CRÍTICA
A leitura critica exige do leitor uma visão abrangente em torno do assunto que
está sendo focalizado, E necessário, pois, que se faça uma pré-
3 GOLBERG. Em O Globo, 07/05/1950.
18
leitura do material a ser analisado para, então, estabelecer-se diferença entre a
sucessão das idéias principais, contidas nas sentenças-tópico.
Ler criticamente significa reconhecer a pertinência dos conteúdos apresentados,
tendo como base o ponto de vista do autor e a relação entre este e as sentenças-
topico. Essa pertinência é que permite estabelecer-se uma hierarquia entre a
idéia mais abrangente e as que a subsidiam.
O texto seguinte não apresenta divisão paragráfica, contudo verifica-se que a
unidade formal que ele apresenta não corresponde à unidade de um parágrafo
didático, já que há uma série de idéias acumuladas em um único bloco, que
devem ser reestruturadas, tanto pela densidade de informação, quanto pela
hierarquia em que devem ser apresentadas.
Aleijadinho (António Francisco Lisboa, dito O), escultor e arquiteto brasileiro
(Ouro Preto MG c. 1730 id. 1814). Filho natural do mestre de obras português
Manuel Francisco Lisboa, então considerado o primeiro arquiteto da província.
Formação artística e técnica no canteiro das obras do pai; aprendizado com o
abridor de cunhos João Gomes Batista e provavelmente com José Coelho de
Noronha, que se distinguia nas obras de escultura e talha em igrejas mineiras. Na
madureza, começou a sofrer de uma enfermidade que, aos poucos, o foi
inutilizando e deformando, e cuja natureza é ainda objeto de controvérsias entre
os especialistas, havendo quem diga tratar-se de tromboangeite obliterante
(ulceração gangrenosa das mãos e dos pés). Tendo perdido os artelhos, o
Aleijadinho passou a ser carregado, só conseguindo andar de joelhos com
dispositivos de couro confeccionados sob sua orientação; com os dedos das
mãos perdidos, uns, e quase sem movimento, os outros, mandava que lhe
amarrassem diariamente às mãos o martelo e o cinzel, para poder esculpir. Em
1800, firmou Antônio Francisco Lisboa o contrato para a execução de Os doze
profetas do adro da igreja
19
de Bom Jesus de Matosinhos, depois de haver realizado em cedro as sessenta e
seis figuras que compõem os Passos da Via Crucis, no mesmo Santuário, mais
tarde encarnadas pelos pintores Manuel da Costa Atalde e Francisco Xavier
Carneiro (essas figuras estiveram até 1957 sob grosseiras pinturas adicionais,
sendo então reconstituidas nas cores originais pelo Serviço do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional). A obra de Aleijadinho pode ser dividida em duas
fases, antes e depois de atacá-lo a terrível doença: na fase sã, a deformação das
imagens é de caráter plástico, predominando em suas composições o equilibrio,
serenidade e magistral clareza, ao passo que, na segunda fase (Congonhas), as
deformações e toda a obra assumem um caráter expressionista. Consta que,
nessa última fase, Antônio Francisco Lisboa segregou-se da sociedade,
mantendo-se em contato com apenas dois escravos e ajudantes; só andava na
rua altas horas da noite ou da madrugada, montado a cavalo, coberto com ampla
capa e chapéu desabado. Durante o trabalho, fazia-se ocultar por uma tenda, não
permitindo a aproximação de estranhos Morreu isolado e quase esquecido,
conquanto os contemporâneos lhe pressentissem talvez os dotes geniais e a
capacidade criadora. No dizer de Manuel Bandeira, "o diminutivo de Aleijadinho é
significativo de pura compaixão e meiguice brasileira. O homem a que ele se
aplicou nada tinha de fraco nem pequeno: era, em sua deformidade, formidável.
(...) Toda a sua obra de arquiteto e escultor é de uma saúde, de uma robustez, de
uma dignidade a que não atingiu entre nós nenhum outro artista plástico". A
partir de 1812, Antônio Francisco ficou impossibilitado de trabalhar, passando
seus dois últimos anos de vida entrevado e cego, sobre um pequeno estrado em
casa de sua nora. Depois de sua morte, Aleijadinho foi esquecido por mais de
quarenta anos, até que Rodrigo Bretas lhe escrevesse a biografia, publicada em
1858, voltando a ser louvado somente após o movimento de afirmação dos
valores nacionais provocado pela Semana da Arte Moderna (1922) - Sua obra,
sempre caracterizada por inspiração dínâmica e barroca, é extensa. (...) 4
Conforme já se disse anteriormente, este texto não apresenta divisão paragráfica
Proceda à divisão do texto em parágrafos, tomando por base
4. Grande enciclopedia Delta Larousse, verbete "Aleijadinho". Rio, Delta, 1970.
20
uma senten a-tópico que norteará cada bloco de idéias em que se venha a dividir
o texto. Para tal, convém ter em mente que saber diferençar as idéias entre si é
fundamental.
Diferençar as idéias significa hierarquizar 'os assuntos pela ordem de
importância, analisar as ligações que os unem e ordenar os fatos ou ações ao
longo de um raciocínio.
Para diferençarem-se as idéias é preciso que se conheçam as seguintes etapas:
a) primeiro, distinguem-se as idéias principais das secundárias, depois
diferenciam-se as idéias secundárias entre si; finalmente, classificam-se os
pormenores que servem de apoio as idéias secundarias;
b) analisam-se as ligações que unem duas idéias sucessivas, distinguindo as
idéias paralelas. as opostas, as coordenadas e as subordinadas entre si;
c) ordena-se a seqüência das idéias, observando-se o mecanismo lógico a fim de
perceber os mecanismos sutis do pensamento do autor.
Discuta com seu grupo os itens anteriormente enunciados, tomando como base
o texto "Aleijadinho" e, em seguida, proceda aos exercícios.
a) O texto pode ser dividido da seguinte maneira:
1ºo § - de até
2º § - de até
continue:
b) Dê coerência ao texto, escrevendo a ordem lógica em que cada parágrafo deve
ocorrer:
1º. § - deve ser o que vai de até
2º § - deve ser o que vai de até
21
continue:
c) Escolha dois parágrafos, considerdos como se fossem pequenos textos e dê
um titulo a cada um. Lembre-se de que um titulo expressivo induz à leitura do
texto. (Obs. Antes, leia alguma bibliografia sobre a técnica de criar títulos).
2.2. Leitura interpretativa
A leitura interpretativa requer total dominio da leitura informativa. Para que se
faça leitura interpretativa é necessário que se reconheçam determinadas
capacidades de conhecimento. Este assunto será estudado a seguir.
22
II
Texto e entendimento
Bem, uma vez cumpridas as etapas fundamentais para que se faça leitura
informativa coerentemente, deve-se passar à fase seguinte que é a de en-
tendimento do texto. Para isso, serão estudadas as capacidades cognitivas,
propostas por Benjamin Bloom et alii. Se bem apreendidas essas capacidades, o
leitor ficara apto a entender-interpretar textos e, mais ainda, a redigir com maior
segurança.
Entender um texto é compreender claramente as idéias expressas pelo autor
para, então, interpretar e extrapolar essas idéias. Nesse momento o leitor deve
ajustar as informações contidas no contexto em analise às que ele possui em seu
arquivo de conhecimentos.
1. CAPACIDADES COGNITIVAS, DE ACORDO COM BLOOM:(5)
1.1. Compreensão - é a capacidade de entender a mensagem literal contida em
uma comunicação . Em um primeiro momento deve o leitor ater-se ao ponto
5 BLOOM, S. B. et alii. Taxionomia dos Objetivos educacionais. Porto Alegre,
Globo, 1973, p. 55-165. As noções teóricas de BLOOM foram adaptadas pela
autora deste livro.
23
de vista do autor, à tese que o autor defende no texto.
1.2 - Análise - é a capacidade material em suas partes constitutivas,
percebendo-se suas inter-relações e os modos de organização. É a capacidade
de decompor um todo em suas partes partindo das sentenças tópico dos
parágrafos e suas relações com o texto.
1.3. Síntese - é a capacidade de colocar em ordem os pensamentos essenciais do
autor, utilizando-se das sentenças-tópico dos paragrafos, que são as que
normalmente sintetizam as idéias do texto. A síntese manifesta-se pela
reconstituíção do todo decomposto pela analise, eliminando-se o que é secundá-
rio e acessório e fixando-se no essencial. Nesse momento atinge-se o ideal de
relacionar e ordenar as idéias, sem a preocupação de seguir rigorosamente a
sequência que elas possuem no texto original, mas com a de que em torno do
ponto de vista do autor gravitem todas as outras Idéias importantes -
1.4 - Avaliação - é a capacidade de emitir um juízo de valor e de verdade a
respeito das idéias essenciais de um texto. Manifesta-se por meio de julgamento,
de julgamento, de critica, às relações lógicas evidenciadas no texto e sua
possível aplicação científica.
1.5. Aplicação - é a capacidade de resolver situações semelhantes à situação
explicitada no texto. Manifesta-se pela habilidade de, ao associarem-se assuntos
paralelos, utilizar-se de princípios apreendidos num contexto em contextos
semelhantes; é a capacidade que nos garante ter entendido o assun-
24
to e nos permite projetar novas idéias a partir dos conhecimentos adquiridos, por
meio da criatividade a qual se manifesta pela elaboração de um plano e, em
seguida, pela redação de um tema.
Depois de bem assimiladas estas capacidades cognitivas, o leitor estará apto a
interpretar e extrapolar, cientificamente, as idéias de um texto.
Treine: interprete o texto seguinte, de acordo com as capacidades cognitivas.
Francês defende pureza da língua com processo contra o "franglais"
Os puristas chamam de poluíção do idioma. Os empresários simplesmente, de
de estratégia de marketing. Para a lei é ilegal em alguns setores. Mas para a
maioria dos franceses trata-se de franglais - o uso e o abuso do inglês,
especialmente na área comercial.
Os defensores da língua francesa, dispostos a conter a invasão anglo-saxá a seu
vocabulário, têm levado empresas aos tribunais por utilizarem palavras inglesas.
No mês passado, a Associação Geral dos que utilizam a língua francesa (Agulf)
acusou uma cadeia de lanchonetes de iludir os consumidores, ao introduzir, no
cardápio, itens como fingfish, big cheese e coffee drink.
O Tribunal de Paris aceitou a denúncia, com base na lei de 1975 que determina
que todos os produtos devem ser rotulados e anunciados em francês. A
empresa, a France-Quick, foi condenada a pagar multa multa equivalente a Cz$
400 mil. A sentença foi a última vitória da Agulf, um grupo de vigilância apoiado
pelo Governo, formado por políticos, intelectuais e consumidores, que fiscaliza
empresas nacionais e estrangeiras.
- Alguém que compre um big cheese, possivelmente não saberia o que isto
contem. E nossos advogados comprovaram que o coffee drink não passa do
simples café, só que mais fraco do que o que costumamos beber na França -
disse Micheline Faure, porta-voz da Agulf. A associação já ganhou 30 causas nos
tribunais.
25
Empresas estrangeiras que exportam seus produtos para a França têm sido
pressionadas por não apresentarem traduções dos textos de suas bulas,
manuais e embalagens. O movimento contra a invasão do franglais sempre teve
o apoio do Governo francês e a Agulf é subsidiada pelo Escritório do Primeiro-
ministro Pierre Mauroy.
No ano passado, o Ministério das comunicações proibiu 127 expressões de
origem inglesa, usadas, principalmente, em emissoras de rádio, televisão, cinema
e agências de publicidade. Oficialmente, não se diz mais close-up, mas gros plan,
e cameramen são les cadreurs. Mas, no dia-a-dia, o franglais ainda é bastante
empregado.
Os empresários falam muito de le cash flow ou le hot money. As pessoas viajam
de le jet, enquanto uma caminhada é le footing. Os esportistas fazem le jogging
ou le stret-ching (ginástica).
Muitas comissões de lingüistas têm sido formadas para criar expressões
francesas que equivalham às inglesas, embora ainda não se tenha conseguido
substituir le weekend por fim de semana (...).
Micheline Faure diz que, em todos os casos, as multas foram mínimas e que a
organização está mais interessada na defesa de seus princípios do que em
lucros financeiros. Segundo ela, o importante é fazer com que as pessoas saibam
que a lei existe, observando que nenhuma multa foi aplicada antes da criação da
Agulf, em 1977.
- Nosso objetivo é evitar a poluição do idioma francês, apenas por modismo ou
por um gosto esnobe por palavras que não pertencem a nenhuma cultura em
particular -disse ela.(6)
Interprete o texto, respondendo aos seguintes itens:
a) compreensão: Que tese é defendida no texto?
b) analise: Quais as partes constitutivas do texto?
6 FUXUDA, Eíko. Jornal do Brasil, 01/04/1964.
26
c) síntese: Qual a síntese ideal deste texto?
d) avaliação: As idéias essenciais do texto merecem crítica? Negativa?
e) aplicação: Em que outro(s) contexto(s) podem ser aplicadas as idéias
essenciais do texto?
Elabore um plano que lhe permita defender com mais segurança as suas idéias.
Com base no plano elaborado escreva uma redação. Para melhor elaborar o
plano leia GARCIA, Othon M., op. cit., sétima parte, cap. III.
2. PLANO DE TEXTO EXPOSITIVO
Ao concluir, parcíalmente, os estudos sobre leitura e entendimento de textos,
apresentamos um plano roteiro que lhe servirá de ponto de partida para uma
redação. Para escrever a redação com consistência leia o texto que serviu de
base para este roteiro: REIS FILHO, Nestor G. Quadros da arquitetura no Brasil,
p. 87-96.
Tema:
Como se situa a arquitetura brasileira dentro do vertiginoso avanço técnico,
econômico e social por que passa nosso país?
1º § - sentença-tópico:
Acompanhando o período de intensa industrialização por que passava o nosso
pais, a partir da
27
Segunda Guerra Mundial, surge o movimento contemporâneo da nossa
arquitetura, que aproveita o momento e os recursos oferecidos pelas cir-
cunstâncias para a sua expansão.
idéia secundaría:
Esse movimento vai acompanhar as crescentes transformações econômicas,
sociais e culturais do nosso país.
Idéia secundária:
Todos os problemas ligados ao campo da arquitetura e urbanismo são
corajosamente enfrentados por nossos arquitetos.
2º § - sentença-tópico:
O projeto de Brasília mostra claramente essa evolução e o uso de inovação em
nossa arquitetura.
idéia secundaria:
Já se nota o aproveitamento racional dos terrenos, com distribuição sistemática
dos lotes.
3o § - sentença-tópico:
O concreto aparece como uma solução eficiente, conhecida no meio
arquitetônico por brutalísta.
idéia secundária:
Aliado ao uso do concreto, desenvolve-se o paisagismo.
28
idéia secundária. Em residências particulares há inovações em matéria de
conciliação de paisagismo e concreto.
4º § - sentença-tópico:
Os sistemas de cobertura passam por mudanças consideráveis -
idéia secundária:
A tendência agora é geometrização dos volumes, ao estilo cubista.
5º § - sentença-tópico:
Uma inovação interessante é a distribuição e composição das residências em
atenção ao bem-estar da família.
idéia-secundária:
Surge interpenetração de espaços.
6ª § - sentença-tópico:
No plano urbanístico surgem novas alternativas, com uma distribuição inovadora
das vias públicas.
idéia secundária:
Buscam-se alternativas funcionais: viadutos, passagens subterrâneas...
idéia secundária:
O sistema de circulação e o acesso aos conjuntos residenciais se apresentam
diferentes, contrastando com outras cidades brasileiras.
29
7º § conclusão:
Esse é um quadro bem representativo da evolução da nossa arquitetura nos
últimos anos, quando, então, passaram a vigorar os princípios de renovação e
criatividade. Brasília - vista como um todo - é um elemento-modelo dessa
evolução, que também aparece em outras cidades brasileiras, mas em menor
escala, pois nelas ainda existem elementos fixos representativos dos velhos
padrões que não podem ser eliminados.
(Adaptado da dissertação de
O. Barreto, aluno de LgP1 em 01/1979)
30
III
Palavra e vocábulo:
unidades essenciais de texto
Catar feijão
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel; -
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
A pedra da à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco. (7)
João Cabral aproxima, nesta poesia, o ato de escrever do ato de catar feijão.
Essa proximidade pode ser representada por dois círculos super-postos de tal
maneira, que a área de um não cubra inteiramente a area do outro. (8)
7. MELO NETO, João CabraI. Em. NUNES, Benedito. Poetas modernos ou Brasil
1/1. Petrópolis, vozes, 1971.
8. Segundo GARCIA. Othon M. (Comunicação) em prosa moderna. Rio, FGV,
1980, p. 79) a figuração em círculos inspira-se nos "filtros duplos" imaginados
por BUHLER, K.
31
1º plano = catar feijão - plano real
2º plano = escrever - plano imaginário
3º plano = catar feijão, se limita com escrever - plano metafórico
O primeiro círculo representa a coisa a ser definida; o segundo representa o
plano imaginário ou poético, isto é, a idéia que estabelece semelhança com a
primeira. Na terceira represenção, a zona riscada, que mostra a superposição de
partes dos círculos, relaciona pontos de semelhança ou de proximidade entre os
dois primeiros planos. Podemos, portanto, dizer que ha" uma relação metafórica
entre catar feijão e escrever.
Metafora é a figura literaria que consiste em identificar semelhanças por meio de
um ou mais elementos que os seres têm em comum.
Assim, o processo da escrita é todo metaforizado na poesia de João Cabral. Para
ampliar os seus conhecimentos sobre o assunto leia GARCIA, Othon M., op. czt.,
primeira parte, cap. 1.
32
Observe os dois últimos versos da primeira estrofe: "pois para catar esse feijão,
soprar nele, e jogar fora o leve e oco palha e eco"
As palavras leve, oco, palha e eco podem ser assim interpretadas:
e leve - o que é supérfluo;
oco - o que apodreceu, esvaziou-se; em sentido aproximado, oca seria aquela
palavra vazia de significado, isto é, "palavras-que-não-significam-nada-porque-
significam-tudo" (9);
palha - o que sobra, o que é desnecessário (como a palha de determinados
cereais), a palavra mal colocada;
eco - o que é repetido muitas vezes, a pobreza vocabular.
Leia agora a segunda estrofe do poema e procure interpreta-la, observando a
linha de aproximação entre escrever e catar feijão.
Observe que Mattoso Camara (10) diz o mesmo que João Cabral, apenas de outro
modo:
a) a apresentação visual agrava certos defeitos de formulação, e muitas
incorreções, que passariam despercebidas no correr da fala, ganham relevo e
"saltam aos olhos" no papel;
b) a frase, sem a ajuda do ambiente, da entonação, da mímica, tem de ser mais
logicamente construída e concatenada;
9. O Conceito "palavras-que-não-significam-nada.porque-significam-tudo" é de
NUNES. Amaro V. LEITE, Roberto A. S. Comunicação e expressão em lingua
nacional. S. Paulo, da. Ed. Nacional, 1975, p. 237.
10 CAMARA Jr., Joaquim Mattoso. Manual de expressão oral e escrita. Petrópolis,
voses, 1977, p. 57-58.
33
c) pelo mesmo motivo, as palavras têm de ser mais cuidadosamente escolhidas,
e impõe-se a questão da propriedade dos termos, de maneira aguda;
d) uma palavra muito repetida ou redundante torna-se particularmente afrontosa
no processo da leitura;
e) certos termos e expressões, tidos como familiares e pouco literários,
raramente se apresentam toleráveis na exposição escrita;
f) a pontuação precisa ser cuidadosamente observada.
O texto abaixo exemplifica o eco vocabular:
Lei
Este churrasquinho no espeto esta legal. Fiz um samba Iegal..
O discurso do prefeito foi legal . Praia legal. Gol legal. Aquela
Coroa foi muito legal comigo. Tivemos uma briga legal. Amanhã, às 11, na
Montenegro? legal.
Parece que nunca houve tanta legalidade nesse país.(11)
Eis um discurso "ilegal", propositalmente criado por Drummond. A palavra fica
tão gasta porque é usada com tantas intenções e significações diferentes, que as
pessoas terminam não sabendo direito o que ela quer dizer. Empregar sempre e
em qualquer contexto as mesmas palavras é pobreza vocabular, prejuízo certo
para a comunicação. Qual o significado de legal, em cada uma das ocorrências
do texto?
No exercício seguinte você vai ser obrigado a evitar essas "palavras vazias" (ou
esvaziadas pelo uso) que servem para tudo.
11 ANDRADE, Carlos Drummond de. Em Jornal do Brasil, 05/12/1972.
34
Relacionamos algumas palavras em que o adjetivo se põe insistentemente
repetido. Você vai substituí-lo por outros adjetivos mais expressivos, menos
gastos, que comuniquem melhor a idéia.
Utilize-se do repertório apresentado para substituir cada palavra vazia. Em
seguida justifique o uso do adjetivo que escolheu redigindo uma frase, assim
você enriquecerá seu vocabulário. (12)
Use o dicionário para fazer os exercícios Importante - repertório:
decisivo/ponderado/categórico/respeitável/sigiloso/famoso/r e l e v a n t e/ im.
prescindível/engenhoso.
a) Opinião importante.
Opinião
b) Pessoa importante.
Pessoa
c) Documento importante.
Documento
d) Jogo importante.
Jogo
Como se observa, uma unidade vocabular pode possuir, na língua, vários
sentidos. A essa variedade de significações chama-se polissêmia
Leia o trecho ilustrativo e assinale as unidades polissêmicas.
Minha vizinha sueca anda em apuros com a nossa língua. Mal aprendeu que
"manga" é uma parte do paletó, e lã veio
12 O exercício de "palavras vazias" encontra-se em NUNES, Amaro
v. - LEITE, Roberto A S., op. cít., p. 237-238.
35
o menino do balaio oferecer "manga" espada. E a vizinha nem chegou a guardar
que o nosso parente oficial foi receber justamente a "espada" que nada tem a ver
com a "manga". A aflição da estrangeira tem-me feito pensar que está tudo de
cabeça para baixo nos arraiais do vocabulário. Misturam-se as coisas com os
animais, atrapalham-se os significados, é uma anarquia sem desordem, uma
perfeita arrumação sem a menor lógica!
As pessoas marcam encontro na boca da noite. E a noite tem alguma boca? A
alma não se separa do corpo, mas basta a pessoa se cansar, para pôr a alma pela
boca. É uma pessoa, por menor que seja, pode muito bem pôr a boca no mundo.
Depois, um bate-boca pode dar-se sem o menor contato de uma boca com a ou-
tra. E não machuca nenhum dos dois. (13)
Para melhor entendimento de leia GARCIA, Othon M., op. cit., segunda parte, cap.
1.
1. USO DE PALAVRA E VOCABULÁRIO
A fim de que a unidade vocabular seja empregada adequadamente em uma
exposição escrita ou oral, é necessário que se conheça o valor semântico que
cada uma possui. Para isso, o conhecimento do vocabulário é fundamental.
Vocabulário é o conjunto de vocábulos, empregados em um texto,
caracterizadores de uma atividade, de uma técnica, de uma pessoa etc. De acor-
do com a terminologia lingüística, vocabulário é uma lista de ocorrências que
figuram em um corpus.
Um corpus se constitui de um conjunto de enuncíados (frases, parágrafos,
textos) cujas pala-
13. ROCHA, Antônio A. Em Estado de Minas, 03/06/1972.
36
vras apresentam este ou aquele traço que interessa à análise em questão.
O termo vocabulário justifica-se plenamente em estudos sobre corpus
especializado: vocabulário do futebol, vocabulário da economia, vocabulário da
pesca.
A unidade de vocabulário é o vocabulário que não deve ser confundido com
palavra.)
Vocábulo é unidade de língua efetivamente empregada em um ato de
comunicação representa uma unidade particular, com significado, usada na
linguagem falada ou escrita. Unidade aqui não tem sentido de um numérico, mas
de um semântico: em Setor Habitacional Individual Sul, há quatro palavras, mas
um vocábulo semanticamente integrado e qualquer comutação alterará seu
significado.
Palavra é uma seqüência de um ou mais fonemas suscetível de uma transcrição
escrita, compreendida entre dois espaços em branco; representa então toda
unidade emitida na linguagem falada ou escrita.
Dintingue-se um texto de economia de um de medicina não só pelas palavras
empregadas, mas pelos vocábulos, já que cada um possui vocabulário especifico
da área a que pertence.
Em um texto, por exemplo, podemos contar 1500 palavras e, entre estas, 1200
serem vocábulos . Pode-se afirmar que há, na língua portuguesa, dez classes de
palavras, e, entre estas, funcionam como vocabulários e os substantivos os
adjetivos os verbos e os advérbios terminados em mente.
37
Leia o texto seguinte e faça o levantamento dos vocábulos caracterizadores de
atividade.
Os "peladeiros" de domingo
O juiz é o grito, o uniforme um calção, a linguagem é sem censura e só não vale
gol com a mão.
Para jogar, é só querer e aguentar, como dizem os peladeiros, palavra não
dicionarizada que qualifica os "habituées" do jogo.
É essa espontaneidade que faz da pelada uma das formas mais autenticas de
lazer, principalmente nos domingos. Assim é que no desenrolar da pelada "dar
um ovo na cara ou "estar debaixo da saia do cara" é comum e não leva ninguém
à agressão. Para a especialista em animação sócio-cultural Tênia Barros Maciel,
essa autenticidade pode ser sentida na simples observação de expressão
corporal de um jogador de peladas. Diz ela que, na pelada, o espirito lúcido
prevalece sobre a competição.
Esse clima de camaradagem pode ser observado também nos apelidos dados a
alguns jogadores. Luis Cláudio Alves, por exemplo, recebeu o apelido de Cerezo,
por ser muito desengonçado. Marcos Pereira Dias só é chamado de Belezinha
porque está sempre ajeitando os cabelos. Apelido notório é o de Ubaldo Soares,
jogador mais velho da pelada dos coroas. Conhecido como Niterói, há quem diga
que o apelido deve-se às várias pontes que ele tem na boca e, apesar das suas
negativas, seu companheiro de jogo Mário M. Valente afirma veementemente que
ele perdeu a dentadura na areia.
Mais sofisticado do que as peladas comuns, é o jogo dos coroas, assim chamado
porque 70 por cento dos jogadores está acima dos 35 anos. Tanto nas peladas
comuns quanto nas dos coroas, o "banho de cuia" exige certa habilidade do
jogador, que, muitas vezes, deixa o adversário apenas boquiaberto.
A falta de espaço para o bate-bola é um dos problemas enfrentados pelos
amantes de peladas. Para os que moram na Zona Sul, ao final da tarde, a praia
transforma-se em campo, mas para os moradores da Zona Norte e subúrbios a
opção está nos campos rala-cocos (esburacados), improvisados em
38
terrenos baldios ou pirambeiros, que nem sempre permitem que um gol fique
linearmente de frente ao outro.
Mas para os peladeiros que têm "fome de bola" nada disso impede o jogo. o
campo pode ter poças de lama e a bola estar furada, mas se dá para correr e a
redonda aguento o tranco, "tamos ai", como dizem os mais versados em peladas.
As brigas corpo a corpo não são freqüentes e o espírito de conciliação sempre
predomina na pelada, mesmo que o peladeiro seja envolvido por um "lençol" ou
arme uma "cama de gato".
Como a pelada caracteriza-se pelo espírito democrático da brincadeira, aquele
que está disposto a "brincar com a moçada da praia" deverá ir também com
disposição para "engolir um frango", aplaudir uma "jogada de letra" ou "de
charles" e vibrar com uma "bicicleta", seja ela realizada por peladeiro de um time
ou de outro. (14)
Faça os exercícios pedidos:
a) Os vocábulos caracterizadores da atividade, no texto, são:
b) Por meio dos vocábulos sabe-se que o texto retrata uma atividade. Qual é?
Os vocábulos destacados nos remetem a um tipo de atividade - um jogo. Muitas
vezes o vocábulo adquire o significado no contexto por meio da metáfora, como
" engolir um frango".
Releia o texto e destaque agora somente os vocábulos que caracterizam as
pessoas, sua ação e comportamento.
14. FAULSTICH, Enilde L. de J. Adaptado de O Globo, 15/01961
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a) Vocábulos relacionados às pessoas:
b) Vocábulos relacionados à ação que o texto descreve:
c) Vocábulos relacionados ao comportamento das pessoas que realizam essa
ação:
Veja se respondeu assim:
a) pessoa peladeiro, jogador, adversário, time.
b) ação - "dar um ovo na cara", "estar debaixo da saia do cara", "banho de cuía",
"bate-bola", (jogo), bola (redonda), pelada, "lençol", "cama de gato", "brincar com
a moçada na praia", "engolir um frango", "jogada de letra", "jogada de charles",
"bicicleta".
c) comportamento - grito, linguagem sem censura, espontaneidade, lazer,
autenticidade, espírito lúcido, clima de camaradagem, apelidos, habilidade,
amante da pelada, fome de bola "tamos aí", espírito de conciliação, espírito
democrático da brincadeira, disposição, aplaudir, vibrar.
2. VOCABULÁRIO E CAMPO LEXICAL
Ao agrupar os vocábulos, tomando por base a caracterização destes dentro do
texto, procedeu-se à estrutura do vocabulário em campos lexicais.
Campo lexical é o conjunto de vocábulos empregar para designar, qualificar,
caracterizar, significar uma noção, uma atividade, uma técnica,
40
uma pessoa. Um vocabulário é, pois, um grande campo lexical que pode ser
reagrupado em pequenos campos, de acordo com as relações (hiponímia, Veja o
exemplo que apresentamos adiante, neste sinonímia, antonímia etc.) que
ocorrem no texto. capítulo.
Para melhor compreensão do assunto ler VANOYE, Francis, Usos da linguagem:
problemas e tecnicas na produção oral e escrita. S. Paulo, Martins Fontes, 1979,
item 1.3. Ler também FAULSTICH, Enilde L. de J. Lexicologia: a linguagem do
noticiário policial. Brasília, Horizonte, 1980, cap. III.
Atente para as seguintes frases:
a) "mas para os peladeiros que têm 'fome de bola' nada disso impede o jogo".
b) "A falta de espaço para o bate-bola é um dos problemas enfrentados pelos
amantes de peladas".
c) "O campo pode ter poças de lama e a bola estar furada..."
d) "... mas se dá para correr e a redonda agüenta o tranco..."
O vocábulo sublinhado na frase a pode ser substituído pelo da frase b e vice-
versa, sem prejuízo da mensagem:
ou
nada disso impede o bate-bola.
A falta de espaço para o jogo...
O mesmo ocorre nas frases c e d. Isso nos leva a acreditar que jogo e bate-bola,
bola e redonda são sinônimos.
41
Contudo essa verdade é relativa, porque:
a) jogo e bate-bola só são sinônimos em determinados contextos. Uma partida
em que duas seleções disputam um titulo é um jogo, mas não um bate-bola, a
não ser ironicamente;
b) uma bola é de fato redonda, mas nem toda coisa redonda é uma bola.
Conclui-se que - embora não existam sinônimos perfeitos - há uma relação
sinonímica entre os termos.
3 SINONÍMIA E HIPONÍMIA
Pode-se considerar a sinonímia sob duas acepções
a) dois termos são considerados sinônimos quando um pode substituir o outro
em um determinado enunciado;
b) dois termos são considerados sinônimos quando são intercambiáveis em
todos os contextos. Com base neste conceito, pode-se dizer que não existem
verdadeiros sinônimos.
A sinonímia pode ser considerada uma hiponímia simétrica.
A hiponímia (15) deve ser entendida como relação de inclusão de significados
das unidades em questão, assim é que o subconjunto (assassino, matador,
pistoleiro, carrasco, bandido, celerado) está
15 FAULSTICH. Enílde L de J. Lexicologia: a linguagem do notíciário policial
Brasilia , Belo Horizonte, 1980
42
incluso no conjunto criminoso. Donde, todo matador é um criminoso, mas nem
todo criminoso é um matador.
A hiponímia propriamente dita se define por uma relação de implicação
unilateral, assim é que se um objeto é esverdeado pode-se entender que esse
objeto seja verde, mas se o objeto é verde não se diz que ele é esverdeado.
Devido a essa relação de implicação unilateral a hiponímia é assimétrica.
No entanto, quando a relação entre os termos é concebida como uma relação
recíproca, a hiponímia é simétrica e, neste caso, as unidades em questão são
chamadas de sinônimos.
Em determinado contexto, onde bate-bola é igual a jogo e jogo é igual a bate-bola
a relação entre os termos é recíproca, logo sinonímica.
Para melhor compreensão dos conceitos de sinonímia e de hiponímia ler ILARI,
Rodolfo - GERALDI, João W. /Semântica S. Paulo, Ática, 1985, cap. 4.
Treine: No texto abaixo, substitua os termos sublinhados por outros,
estabelecendo, assim, relação sinonímica.
Os efeitos econômicos da propaganda
O uso da influência nas relações comerciais é um dos atributos de uma
economia livre. Por isso, a ética da propaganda é a ética da influência nas
relações entre vendedor e comprador.
Em um sistema competitivo, onde numerosos vendedores concorrem pela
preferência dos compradores, a ética legitima
43
para o vendedor é a mesma que a do advogado; em outras palavras, o ponto de
vista viciado do vendedor não é necessariamente antiético.
À medida que a propaganda e a venda agressiva se desenvolvem, os padrões
éticos que pautam o seu uso evoluem numa base pragmática. Nessa evolução~ic
pragmática dos padrões éticos. de propaganda, certas praticas passaram a ser
encaradas como abusos suficientemente sérios para serem condenados pela lei,
haja vista os chamados "estatutos de propaganda" sancionados em 25 Estados
dos EUA com o apoio da própria classe. (16)
4. ESTRUTURA DE VOCÁBULO EM CAMPO LEXICAL
Leia o texto seguinte para proceder à sua estruturação em campo lexical.
Encontro com o menino branco
Ao som dos passos de Guaci, o menino levantou o rosto.
E Guaci percebeu então que não era um indiozinho como ele, mas sim um
menino branco. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos azuis como a cor do
céu.
Foi a primeira vez que Guaci viu um branco e seu espanto foi grande. O menino
branco também se assustou ao ver aparecer na mata aquele indiozinho alto para
seus nove anos, o corpo moreno coberto apenas por uma tanga. Suas mãos
fortes seguravam o arco e as flechas.
Um gemido de dor escapou dos lábios do menino branco; Guaci, compadecido,
ajoelhou-se a seus pés e só então reparou que a perna do menino estava
sangrando. Parecia mordida de cobra.
O indiozinho aproximou a boca daquela pele branca. Num instante ele chupou o
veneno Injetado pela cobra no pobre menino e cuspiu fora o sangue.
16 BORDEN, N H. em COHN, Gabriel (org.) Comunicação e industria cultural. S.
Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1978, p. 201-202.
44
Seus olhos brilharam de alegria! Ele tinha salvo uma vida!
Tentou falar-lhe na sua linguagem doce, mas o menino nada compreendeu.
Então, apontando o peito, disse!
- Mim... Guaci.
O menino sorriu e respondeu apontando a Si próprio:
- Mim... Joáozinho.
Era o começo de uma grande amizade!
Mais nada podiam dizer, pois cada um deles falava uma linguagem diferente. 17
Procedimentos para estruturar o campo lexical:
a) Lido o texto, investigue qual a palavra-chave que constitui o núcleo da tese
defendida pelo autor. Nesse momento surge o arquilexema do campo, que é a
palavra de significação mais abrangente;
b) liste os lexemas, representados por vocábulos simples, tais como
substantivos, adjetivos, verbos e/ou vocábulos agrupados sob a forma de ex-
pressões ou orações cujas partes não podem ser desmembradas sob pena de
perderem a significação vocabular;
c) uma vez listados todos os vocábulos, reúna-os em pequenos campos de
acordo com as relações de idéias do texto;
17 NOVAES, GIorinha de Moura. Em PERSUHN, Janice J. Escrevivendo, 5ª série.
S. Paulo, Brasil, 1982, p. 121. Este texto (elementar) foi propositalmente
escolhido pars a estruturação do campo por duas razões : possui
bidimensionalidade transparente, o que facilita didaticamente a tarefa e, apesar
do vocabulário simples (talvez por isso), permite várias leituras e interpretações.
45
d) trace um diagrama arbóreo, tomando por base as relações de inclusão -
hiponímia - que há entre o arquilexema e o vocábulo subsequente, no sentido
vertical (paradigmático); ao mesmo tempo, abra novo(s) galho(s) sempre que
houver relação de equivalência - sinonímica - entre um lexema e outro, no
sentido horizontal (sintagmático);
e) busque no dicionário, sempre que necessário, o significado de vocábulo(s)
desconhecido(s), observando a acepção que melhor se coadune ao contexto.
O campo lexical do texto Encontro com o menino branco resultou assim como se
vê na página seguinte.
Campo lexical:
Dessa estruturação conclui-se que:
a) o campo apresenta bidimensionalidade, em primeiro plano, já que as ações se
desenvolvem em torno de dois personagens;
b) as idéias expostas estruturam-se por meio de relações de inclusão - hiponímia
- como "indiozinho e branco são meninos que se encontram"; de equivalência -
sinonímia - como "o espanto do indiozinho foi grande e o menino branco se
assustou quando se viram"; de oposição - antonimía - como a o indiozinho
tentou falar-e na sua linguagem doce, mas o menino nada compreendeu" etc.;
c) a estrutura do texto em campo lexical faculta a apreensão dos conteúdos
básicos do mesmo e possibilita o entendimento da ideologia subjacente;
46
CAMPO LEXICAL:
- nota da ledora: gráfico com representação de sintagmático. - fim da nota da ledora.
47
d) o vocábulo nem sempre se constitui de uma palavra, mas de agrupamento que
não pode ser desmembrado, como "gemidos de dor", "começo de uma grande
amizade" etc.
e) é possível interpretar o texto a luz de seu léxico e reescrevê-lo dando-lhe nova
feição.
Finalmente, sugere-se que o modelo sirva de base para
a) ampliar o conceito de leitura, já que o diagrama possibilita várias leituras
interpretativas;
b) explorar e fixar os conceitos de sinonímia, hiponímia e antonímia
c) planejar e elaborar redações.
O vocabulário, quando estudado em corpus especializado, diz-se técnico.
Vocabulário técnico é aquele em que os termos identificam uma atividade
específica. Assim sendo, reconhece-se que um texto pertence a uma determinada
área grupo profissional - pela significação que os vocábulos possuem ou
adquirem nele. O conjunto de tais vocábulos constitui a linguagem técnica ou
especial.
A linguagem técnica ou especial caracteriza-se por introduzir inovações e
apropriar-se de modo peculiar de outros termos da linguagem comum ou geral.
As modificações que um grupo sócio-profissional introduz na língua são
chamadas de jargão.
Leia o texto seguinte, destaque os vocábulos considerados técnicos e diga a que
área profissional pertencem.
48
A queda na produção de automóveis e pneumáticos para automóveis foi a
principal causa do decIinio de 8,4 por cento do setor de bens de consumo
duráveis, enquanto antibióticos e vitaminas contribuíram para que o setor e
bens consumo não duráveis registrasse um pequeno crescimento de 0,2 por
cento. (18)
5. EXATIDÃO E ADEQUAÇÃO VOCABULAR
A escolha cuidadosa de palavras, para que os termos adquiram propriedade,
torna a frase mais logicamente construída e, consequentemente, o texto se
compõe de maneira concatenada, objetiva e clara porque:
Um texto é um conjunto de elementos:
conjunto de um ou mais parágrafos conjunto de uma ou mais frases compondo
parágrafos conjunto de uma ou mais palavras compondo frases.
Um texto é um conjunto de relações:
ligando parágrafos
ligando uma ou mais frases em parágrafos
ligando uma ou mais palavras em frases. (19)
Um texto é, portanto, um conjunto de elementos e um conjunto de relações que
cria um contexto - uma situação global.
E o contexto que dá significação aos elementos. E no contexto que palavras,
frases e parágrafos ganham importância e significação.
18 Em O Globo 02/03/1981
19 STARLING José Nogueira NASCIMENTO MiIton MOREIRA Samuel
Língua Portuguesa teoria e prática, Belo Horizonte, Vigília, 1978, p.114
49
IV
Produção do texto:
a dissertação
Há três técnicas de redação: a descrição, a narração e a dissertação. Elas podem
vir misturadas em um mesmo texto mas, geralmente, uma delas se sobressai.
A descrição e' a pintura animada e, por isso, tem que ser viva: deve fazer alusão
à vida por meio, da imagem sensível e do detalhe material.
Já em uma narração conta(m)-se um ou vários fatos. A narração pode ser
composta de uma cena complexa e também de um encadeamento de cenas.
Enquanto a descrição está mais voltada para o que e' exterior, a narração e' um
recurso para se escrever sobre o que é mais interior, indo além das ações,
contando fatos em que intervêm pessoas. Narrar é dizer que alguém faz algo num
certo tempo e lugar.
A partir de então, vamos estudar mais detalhadamente o texto dissertativo, por
isso a descrição e a narração foram apenas citadas como técmcas redacionais.
50
Não há uma receita infalível na produção de textos dissertativos. Apresentamos,
pois, sugestões de atividades que podem ajudar na criação de mensagens
dissertativas.
Dissertação é expor, explanar ou ainda explicar idéias. Na dissertação
expressamos o que sabemos ou acreditamos saber a respeito de determinado
assunto.
Assim como a descrição e a narração, a dissertação também deve ser planejada,
para que se obtenha um trabalho preciso, claro, coerente.
Imagine-se tendo de redigir uma dissertação sobre o menor abandonado. Você
deverá proceder da seguinte maneira:
a) anote suas idéias sobre o assunto;
b) se suas idéias são poucas, pesquise sobre o assunto: busque dados
estatisticos, testemunhos, definições etc.; ao fim dessa pesquisa, você terá
muitas outras idéias;
c) delimite bem seu objetivo:
- qual é a tese ou o ponto de vista que você quer defender?
- de que ângulo, de que perspectiva quer tratar o assunto?
Respondendo a essas perguntas você estará definindo o tema do seu texto.
Complete o espaço seguinte com o ponto de vista que você defenderá. O que
quero dizer sobre o menor abandonado pode ser sintetizado na seguinte frase:
51
Você tem uma lista de idéias anotadas; dessas idéias, destaque as mais
importantes, isto é, aquelas que estão estritamente ligadas ao tema que
escolheu. Estas constituirão as sentenças-tópico que fundamentarão o ponto de
vista.
Apóie-se nas idéias restantes - idéias secundárias e pormenores - para realçar,
ilustrar, justificar e comprovar as idéias básicas. Agindo assim, você estará
organizando o conteúdo de seu texto.
Atente agora para o fato de que, se, durante uma dissertação, o autor procurar
convencer o leitor, formar-lhe a opinião pelas provas com que vai
fundamentando suas declarações, ele então estará dando traços de verdadeira
argumentação a seu texto.
A dissertação tem como propósito principal expor ou explanar, explicar ou
interpretar idéias; argumentação visa, sobretudo, a convencer, persuadir ou
influenciar o leitor ou ouvinte.
1. O TEXTO EXPOSITIVO-DISSERTATIVO
Antártida, um desafio e uma esperança
A Antártida(20) representa a ultima porção de terra emersa ainda pouco
conhecida e explorada. É um continente que
20 A palavra Antártica é originária do grego Ântarkitds, pela inclusão do prefixo
anfi (oposto, contrário, contra) ao termo Arktikds, usado desde a antigüidade
grega para designar as constelações da Ursa, significar setenfrional (do norte). A
inclusão do prefixo anti ao termo termo este que passou para o latim, com o
adjetivo Árcticus, para Arktikós, compondo o adjetivo Antarkitikós (no latim
Antarcticus) passou a significar. evidentemente, austral, meridional (do sul). No
português a palavra Antárctida ou, pela nova oriografla, Antártida, é usada para
designar o substantivo, com o sufixo ida, por geônimos
52
possui aproximadamente 14 milhões de quilômetros quadrados e que, segundo
os geólogos, se originou no Mesozóico, separando-se da África, Austrália, índia e
América do Sul, possivelmente em razão de gigantescas perturbações geofísicas
e geológicas ocorridas naquele período. Por aquela época, a Antártida ainda não
se encontrava nas latitudes atuais, e possuía florestas tropicais e fauna
abundante, que se foram extingüindo lentamente, à medida que a região se
deslocava para a posição na qual hoje se encontra, com a chamada deriva dos
continentes.
Ao contrário do Ártico, que se compõe de enorme massa oceânica congelada, o
continente antártico é praticamente construído por uma imensa massa terrestre,
totalmente coberta de gelo, o qual, sem dúvida, protege o mistério das idades
que presidiram sua formação e certamente guarda, sob suas espessas camadas,
inesgotáveis recursos minerais.
A primeira incursão de caráter científico que se tentou realizar na Antártida foi a
efetuada por Sir James Cook, que a bordo do Resolution executou a primeira
viagem de circunavegação em torno daquele continente, entre 1772 e 1775, che-
gando a atingir a latitude de 71º 10'S. Cook nessa viagem demonstrou a
continuidade das águas ao redor da Antártida e desfez a ilusão de que a Austrália
se prolongasse em latitudes antárticas, chegando até a duvidar da existência de
um continente no extremo meridional pois não o encontrou nas várias
oportunidades em que cruzou o círculo Polar Antártico.
No último decénio do século XVIII e início do século XIX, as viagens exploratórias
oficiais ao continente antártico foram interrompidas, certamente pela situação
política com que se defrontava a Europa, desde o inicio da Revolução Francesa
até o fim das Guerras Napoleônicas. Entretanto, um aspecto importante que
possibilitou a descoberta e o conhecimento das regiões antárticas, desde a
viagem de Cook, foi o ciclo de caça da foca, abundante nos arquipélagos austrais
descobertos por essa época (Shertland e Órcadas do Sul).
A segunda metade do século XIX foi notável pela ausência de continuidade nas
atividades polares austrais, tendo havido
- continuação da leitura da nota de número 20: antigos do tipo Atlántida, Alguns
filólogos e outros. Alguns filólogos, entretanto, consideram o termo Antártida
como um espanhotismo, argumentando que, em português. a palavra correta
seria Antártica. No presente trabalho será empregada a palavra por ter sido esta a
usada pelo governo em seus decretos sobre o assunto.
53
apenas algumas iniciativas de destaque, como a da Royal Geographical Society,
de Londres, que patrocinou, em 1874, a realização da primeira comissão
oceanográfica, a bordo do Chalienger, mas que não chegou a ser uma expedição
antártica propriamente dita, e a do Império AustroHungaro, em 1882-1883, com a
realização do primeiro Ano Polar, no qual tomaram parte 12 países. Tal
descontinuidade deveu-se provavelmente às atividades das potências européias
que, no auge de seu expansionismo mercantilista e colonialista, estavam mais
preocupadas com a partilha da África e Ásia, na consolidação dos seus impérios
coloniais (no caso africano regulamentado pela Ata de Berlim de 1885), do que
propriamente com a organização onerosa de expedições a um continente
desconhecido, de acesso excepcionalmente difícil e de duvidoso aproveitamento
econômico.
Depois da Primeira Guerra Mundial, que interrompeu por algum tempo as
expedições à Antártida, essas passaram a beneficiar-se consideravelmente dos
novos avanços tecnológicos sobretudo a aviação e a radiotelegrafia. A
renovação da indústria baleeira, à importância das observações meteorológicas
para a navegação marítima e aérea e para a climatologia, aliou-se a possibilidade
de exploração futura de valiosos recursos minerais. Dentro dessas novas
perspectivas é que, em 1928, Richard Byrd, da Marinha dos Estados Unidos, com
a ajuda financeira de grandes empresários americanos, organizou uma expedição
à Antártida, com o navio City of New York, levando a bordo um avião, com o qual
realizou a primeira viagem aérea sobre aquele continente, sobrevoando inclusive
o Pólo Sul, em novembro de 1929.
Entre 1929 e 1931, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia efetuaram operações
conjuntas na região.
O interesse dos cientistas pelas regiões polares levou-os à realização de um
segundo Ano Polar, em 1932-1933, decorrido, portanto, meio século da realização
do primeiro. Os trabalhos contaram com a participação de 30 nações, mas o
Artico foi ainda a finalidade maior desse esforço científico global.
Durante a Segunda Guerra Mundial surgiu uma nova problemática para a região
antártica: o seu interesse estratégico, quando navios corsários alemães, no
Pacifico Sul, se serviram das ilhas Kerguélen como base de reabastecimento. Os
ingleses Intensificaram suas atividades na região e estabelece-
54
ram, em 1943, estações meteorológicas na Costa W da península de Graham. Os
Estados Unidos, já anteriormente (1939-1941), tinham iniciado a ocupação
permanente com dupla finalidade, tanto científica quanto estratégica,
estabelecendo bases em pontos explorados por expedições norte-americanas,
como em MacMurdo.
Em 1943, a Marinha argentina organizou uma expedição à Península Antártica e
às ilhas Shertland e, em 1947, os chilenos estabeleceram a sua primeira base na
região, escolhendo a llha de Greenwich, Shetland do Sul.
Logo apó. o término da Segunda Guerra Mundial, em 1946, os Estados Unidos
realizaram a operação High Jump (Salto Grande), sob o comando do Almirante
Byrd, empregando 4.000 homens, embarcados em nove navios, um submarino e
um quebra-gelo. Essa operação representou passo importante na exploração
antártica e serviu para renovar o interesse do governo norte-americano pela
região, com uma demonstração de força numa época em que já se delineavam os
contornos de Guerra Fria. Posteriormente, entre 1950 e 1952, ocorreu a primeira
expedição internacional, da qual participaram a Noruega, inglaterra e Suécia e,
anos mais tarde, no período de 01/07/1957 a 31/12/1958, foi realizado um pro-
grama científico de grande envergadura, com observações simultâneas em todas
as áreas do mundo, no ramo das ciências da Terra, incluinlo Oceanografia,
Meteorologia, Física da Alta Atmosfera e Glaciologia. O programa do Ano Geofi-
sico para a Antártída teve a participação de doze nações: Argentina, Austrália,
Bélgica, Chile, França, Japão, Nova Zelândia, Noruega, África do Sul, URSS,
Reino Unido e Estados Unidos da América, sendo estas as nações que, no ano
de 1959, em Washington, elaboraram o Tratado da Antártida, firmando o primeiro
estatuto jurídico para a região. (21)
Estruturalmente, esta dissertação apresenta as seguintes partes:
a) Introdução - onde o autor expõe a tese ou ponto de vista que quer defender~
Deve-se evitar que a
21 BAKKER, Múcio Piragibe Ribeiro de. Revista brasileira de tecnologia. Brasilia
13(3): 4, iun/jul 1982.
55
introdução antecipe o desenvolvimento e a conclusão do texto, sendo, por isso,
pouco recomendável que nela se incluam exemplos.
No texto Antártida, um desafio e uma esperança - o autor defende o seguinte
ponto de vista:
"A Antártida representa a última porção de terra emersa ainda pouco conhecida e
explorada".
No primeiro parágrafo, o da Introdução, a tese ou ponto de vista coincide com a
sentença-tópico, a qual será fundamentada por meio das seguintes idéias
secundárias:
1. "é um continente";
2. "possui aproximadamente 14 milhões de quilômetros quadrados";
3. "segundo os geõlogos, se originou no Mesozóico";
4. "separando-se da África, Austrália, India e América do Sul, possivelmente em
razão de gigantescas perturbações geofísicas e geológicas ocorridas naquele
período";
5. "por aquela época, a Antártida ainda não se encontrava nas latitudes atuais";
6. "possuia florestas tropicais e fauna abundante";
7. (florestas tropicais e fauna abundante) "se foram extinguindo lentamente";
8. "a região se deslocava para a posição na qual hoje se encontra, com a
chamada deriva dos continentes".
b) Desenvolvimento - comporta as idéias que fundamentarão o ponto de vista do
autor. A idéia-núcleo, apresentada na introdução, normalmente é demonstrada no
desenvolvimento por meio de idéias que provem ou exemplifiquem o dito.
56
Os parágrafos que compõem o desenvolvimento apresentam uma sentença-
tópico fundamentada por idéias secundárias e estas, por sua vez, pelos
pormenores.
O texto em estudo apresenta 9 parágrafos de desenvolvimento. Veja se todos
eles apresentam sentença-tópico e idéias secundárias.
Estruturalmente, os 9 parágrafos estão formados assim:
2º. § - sentença-tópico:
"Ao contrário do Ártico, o continente antártico é praticamente constituido por
uma imensa massa terrestre...
idéias secundárias:
1. "(O Ártico) que se compõe de enorme massa oceanica congelada";
2. "(massa terrestre) totalmente coberta de gelo;
3. "(gelo) o qual protege o mistério das idades";
4. (idades) "que presidiram sua formação";
5. "e guarda inesgotáveis recursos minerais".
3º. § - sentença-tópico:
"A primeira incursão de caráter científico que se tentou realizar na Antártida foi
efetuada por Sir James Cook..."
idéias secundárias:
1. (James Cook) "que a bordo do Resolution executou a primeira viagem de
circunavegação em torno daquele continente";
57
2. (Resolution) "chegou a atingir a latitude de 71010'S.
Continue:
4º § - sentença-tópico: transcreva-a:
idéias secundárias: transcreva-as:
Continue o exercício, é dessa forma que se pode apreender as idéias expostas
pelo autor, entendê-las e, em consequência, aprender a redigir corretamente
novos textos.
Você percebeu que há dois parágrafos, no texto analisado, que não apresentam a
binariedade necessária para serem considerados parágrafos bem estruturados;
estes parágrafos - 7º e o 10º - são, por isso, considerados de transição, quer
dizer, aqueles que servem para estabelecer um elo entre a idéia anterior -
seguinte.
c) Conclusão - apresenta uma síntese da Introdução e Desenvolvimento. E o
fecho do trabalho dissertativo e deve ser objetiva e clara.
O(s) parágrafo(s) que contém(êm) a conclusão também pode ( m) apresentar
sentença-tópico e idéias secundárias, ou, então, somente a sentença-tópico.
58
A conclusão do texto "Antártida é a seguinte:
Sentença-tópico.'
"Logo após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1946, os Estados Unidos
realizaram a operação High Jump (Salto Grande), sob o comando do almirante
Byrd, empregando 4.000 homens, embarcados em nove navios, um submarino e
um quebra-gelo".
Escreva, agora, onde começa e onde termina cada idéia secundária desse
parágrafo:
2. O TEXTO DISSERTATIVO-ARGUMENTATIVO
A Antártida representa o cenário do maior projeto científico internacional da
história da humanidade. Para um país como o Brasil, ainda importador de
tecnologia e de pouca tradição científica, O Projeto Antártico Brasileiro poderá
constituir-se no grande salto do país no caminho do seu desenvolvimento
científico e tecnológico, à medida que se puder acionar com a rapidez necessária
e motivação correspondente o enorme potencial existente nas instituições
científicas do pais e nas suas universidades. As ciências, que se desenvolvem no
continente antártico, as chamadas Ciências da Terra, por se preocuparem
prioritariamente com o conhecimento do planeta e da vida nele existente, têm
empolgado a juventude universitária brasileira e aparecem como um novo leque
de opções a atrair a mocidade estudantil, quase sempre dirigida para as ciências
mecânicas e sócio-econômicas.
Sem dúvida, a presença brasileira na Antártida irá requerer a superação prévia de
inúmeros óbices, especialmente para o Brasil, país sem nenhuma tradição polar.
O fator humano, por exemplo, tem sido uma fonte de preocupação. As neces-
sidades de pessoal especializado ocorrem tanto nos campos de pesquisa,
quanto nos de apoio. De outra parte, será ne
59
cessário integrar o Proantar, isto é, compatibilizá-lo com os vários projetos
científicos que estão em andamento na Antártida, muitos deles iniciados durante
o Ano Geofisico Internacional (AGI) - Isto irá requerer um estudo detalhado
desses projetos, além de uma análise criteriosa de tudo o que o se processou
cientificamente na Antártida desde a realizaçâo do AGI. Somente dessa maneira é
que o Proantar poderá ser reconhecido, como de interesse para a Antártida e,
conseqüentemente, a pesquisa nele programada, uma vez realizada, possa ser
qualificada de substancial.
Outra grande dificuldade que as expedições brasileiras irão enfrentar refere-se ao
meio ambiente natural antártico, que é bastante adverso, não só pelas condições
extremas que apresenta para a vida humana, como também pela rapidez com
que, muitas vezes, os parâmetros ambientais variam. Afinal, essas dificuldades
existem e, certamente, serão contornadas ou superadas pelo Brasil, como o
foram pelos países pertencentes ao "Clube Antártico".
Um pais com a importância política do Brasil, com a projeção econõmíca que já
alcançou e com a influência cultural que tem transcendido as suas fronteiras,
não poderá permanecer em uma posição caudatária em ciência e tecnologia. O
Projeto Antártico, indubitavelmente, constituirá urna grande oportunidade para a
nação se projetar cientificamente.
O Brasil não irá para a Antártída fazer reivindicações territoriais posteriores.
Ciente de seus interesses e das responsabilidades que assumiu como signatário
do tratado, o Brasil pretende apenas integrar-se na grande comunidade antártica,
com a humildade de quem, até então, representou o grande omisso, para fazer
ciência e conseqüentemente participar dos destinos daquela região, que
constitui a última grande porção de terra emersa em todo o planeta e onde uma
nova experiência de convivência internacional está sendo experimentada.
Todas as nações têm seus problemas, inclusive aquelas que desenvolvem
atividades no continente antártico. Mas, nem por isso, elas pretendem abdicar de
seus interesses naquele continente Sabe-se que o Brasil tem problemas, e
muitos. Mas não pode interiorizar-se e deixar de pensar no futuro. Existem
compromissos com as novas gerações e há que pensar no ano 2000. A Antártida
é futuro. Debruçado sobre o
60
Atlântico Sul, o Brasil precisa retomar sua vocaçáo marítima e caminhar para
Leste e para as regiões austrais, como outrora fizeram seus antepassados lusos.
(22)
Estruturalmente, este texto argumentativo apresenta as seguintes partes:
a) Proposição - é a declaração, tese ou opinião firmada do autor.
No texto, a proposição é:
"Para um país como o Brasil, ainda importador de tecnologia e de pouca tradição
científica, o Projeto Antártico Brasileiro poderá constituir-se no grande salto do
país no caminho do seu desenvolvimento científico e tecnológico, à medida que
se puder acionar com a rapidez necessária e motivação correspondente o
enorme potencial existente nas instituições científicas do pais e nas suas univer-
sidades".
b) Concordância parcial - são dados argumentativos que fundamentam a tese.
São concordâncias parciais, no texto:
1. " as Ciências da Terra (...) aparecem como um novo leque de opções a atrair a
mocidade estudantil, quase sempre dirigida para as ciências mecânicas e sócio-
econômicas";
2. "... a presença brasileira na Antártida irá requerer a superação prévia de
inúmeros óbices..."
3. ... será necessário integrar o Proantar, isto é, compatibilizá-lo com os vários
projetos científicos que estão em andamento na Antártida..."
22 BAKKER, Mucio Piragibe Ribeiro de., op. cit., p. 20-21.
61
4. "... Isto irá requerer um estudo detalhado desses projetos, além de uma análise
criteriosa de tudo o que se processou cientificamente na Antártida..."
5. "... as expedições brasileiras irão enfrentar dificuldades referentes ao meio
ambiente natural antártico, que é bastante adverso...
6. "Um país com a importância política do Brasil, com a projeção econômica que
já alcançou e com a influência cultural que tem transcendido as suas fronteiras,
não poderá permanecer em uma posição caudatária em ciência e tecnologia".
c) Contestação ou refutação - trata-se de uma contra-argumentação à tese
inicialmente apresentada; tem caráter adversativo, podendo aparecer (ou não)
explicítamente as conjunções adversativas.
No texto, é refutação:
"O Brasil não irá para a Antártida fazer reivindicações territoriais posteriores, ... .)
pretende apenas integrar-se na grande comunidade antártica.
d) Conclusão - tem por finalidade explicitar em termos claros a essência do
trabalho. E a sintese de uma tese coerentemente argumentada.
A conclusão do texto é:
"Todas as nações têm seus problemas (...) [mas] a Antártida é futuro. Debruçado
sobre o Atlântico Sul, o Brasil precisa retomar sua vocação marítima e caminhar
para Leste e para as regiões austrais, como outrora fizeram seus antepassados
lusos".
62
Segundo Whitaker Penteado(23) "Argumentar é discutir mas, principalmente, é
raciocinar, é deduzir e concluir. A argumentação deve ser construtiva na
finalidade, cooperativa em espírito e socialmente útil".
Algumas vantagens da argumentação:
a) é um meio de criar hipóteses e experimentar conclusões;
b) é uma técnica de emitir argumentos e opiniões, com o objetivo de defender
uma determinada posição;
c) é um processo de análise e crítica de todos os meios de intercâmbio de
opiniões.
Definições e elementos da argumentação:
Argumentação é a arte de influenciar os outros por meio da evidência e da lógica.
Elementos à argumentação:
a) A EVIDÊNCIA: uma certeza manifesta
Há quatro tipos de evidência:
1. Fatos - são acontecimentos; o que é real. Para uma argumentação ser correta e
objetiva, é indispensável considerar os fatos como evidentes. Um fato é evidente
quando é observável e comprovável. A propaganda, por ser poderosa e evidente,
é um fato inegável. Ex.:
Visto, lido e ouvido
Os desastres de moto no Brasil estão matando mais do que cêncer e coração
juntos. Este é o resultado de estudos reali-
23. PENTEADO , José Roberto Whitaker. A técnica da comunicação humana. S.
Paulo, Pioneira, 1980, p. 233 242.
63
zados na Universidade de Minas Gerais. O principal culpado ainda é a
propaganda, que mostra a moto, não como um veículo para o transporte, mas
para disputa de emoções que nem todo mundo pode viver no dia-a-dia. Uma
publicidade mais sensata traria melhores resultados ás fábricas e à opinião
pública. (24)
2. Exemplos - justificam um fato suficientemente representativo de determinada
espécie de situações, de objetos ou ocorrências. Ex.:
Crianças carenciadas
A ausência da relação materno-filial denomina-se "privação materna". Este é um
termo muito amplo que compreende várias situações. Assim, por exemplo,
considera-se "privada" a criança que vive no mesmo lar que a mãe e esta se
mostra incapaz do amoroso cuidado de que a infância necessita. Da mesma
forma, considera-se "privada" a criança que por qualquer motivo esteja separada
geograficamente do cuidado materno. O efeito de tal privação resultará
relativamente leve se a criança for atendida por alguém que a acarinhe e ria qual
confie; pode, porém, ser grave se a mãe substituta, embora amável, lhe for
estranlia. Não obstante, essas providências proporcionam alguma satisfação e
constituem, portanto, exemplos de privação parcial. (25)
3. Estatísticas - cobrem enorme variedade de aspectos de um problema por meio
de forma numérica simples, compreensiva, de notável força e concisão. Ex.:
No Paraíba o lixo de 40 cidades
Os problemas do Paraíba há vários anos preocupam as autoridades, mas, na
verdade, todas as providências não passaram de paliativo"' ou promessas não
cumpridas. Agora anuncia-se que até o final do ano que vem um modelo matemá-
24 CUNHA, Ari. Em Correio brasiliense, 26/08/1983.
25 SPITZ. Em OLIVEIRA. M. E. M. - SAN~MARTIN. M. R. -GIACOMOZZI, G.
Universltária. Taubate. Grupo de pesquisa em lingüistica e matemática, 1950, vol
4, p. 310.
64
tico repetirá em centros experimentais todas as condições do rio, indicando suas
soluções. Mas isso poderá ser adotado tarde demais: até o final de 76 a
população do Vale terá crescido mais de 12%, as indústrias 7% e a entrada em
funcionamento da Refinaria de São José dos Campos atrairá para suas margens
complexos petroquimicos e siderúrgicos e a duplicação da Companhia
Siderúrgica Nacional, cujas conseqüências demográficas e poluidoras são
realmente imprevisíveis. (26)
4. Testemunhos - são demonstraçóes do poder da presença humana nos
momentos em que se decide entre duas evidências que se chocam. Ex.:
A natureza humana à luz da psicanálise
Os críticos da análise dizem que não há prova cientifica de que o tratamento
funcione, e os analistas concordam que o tipo de ganho feito na análise não pode
ser medido em laboratório. "A validade da psicanálise pode ser demonstrada
convidando-se um antigo paciente a falar sobre como era antes e depois", disse
o Dr. Albert J. Solnit, analista que dirige o Centro de Estudos da Criança em Yale.
De fato, muitos pacientes relatam que a visão de si mesmo e do mundo trans-
formou-se. (27)
b) A LÓGICA: coerência e raciocínio
Raciocinar é fazer uso da razão para conhecer e julgar a reação das Coisas: é o
processo de extrair inferências de fatos, exemplos, estatísticas e testemunhos
1. Você vê um rapaz de "smooking" à noite em Copacabana;
2. você infere que ele está a caminho de uma festa.
26 BARBOSA, Eduardo. Em OUVEIRA, M. H. M. et alíi., op. cit., vol. 2, p. 132.
27. Em OLIVEIRA, M. E. M. eI alíi., ap. cit., p. 212.
65
1. Você vê um carro parado na pista, com um triângulo vermelho exposto;
2. você infere que o carro está enguiçado.
Ver ou ler é colher imagens ou informações. Inferir é raciocinar - é um processo
de inteligência, uma técnica mental.
Para argumentar é necessário refutar as idéias do opositor por meio de contra-
argumentos, assim:
1. Procure refutar o argumento que lhe parece mais forte; comece por ele;
2. procure atacar os pontos fracos da argumentação contrária;
3. escolha uma autoridade que tenha dito exatamente o contrário do que afirma
seu opositor;
4. aceite os fatos, mas demonstre que foram mal interpretados;
5. ataque a fonte na qual se basearam os argumentos do seu opositor;
6. cite outros exemplos semelhantes que provem exatamente o contrário dos
argumentos que lhe são apresentados pelo opositor;
7. analise cuidadosamente os argumentos contrários, dissecando-os para revelar
as falsidades que contêm. (28)
Para o planejamento de um texto dissertativo você deve saber que na introdução
de uma dissertação poderá valer-se de uma frase, de um parágrafo e mesmo de
mais de um parágrafo. O essencial é que a introdução:
1. desperte o interesse do leitor;
2. indique ou sugira o tema que será desenvolvido;
3 conduza o leitor ao desenvolvimento do tema.
28 Conteúdo baseado em PENTEADO, José Roberto Whitaker, op cit
66
Há vários tipos de introdução. Alguns redatores colocam imediatamente a idéia
básica e vão direto a seu desenvolvimento. Outros apresentam algum material
importante para o desenvolvimento, definindo termos, situando o problema ou
mesmo apresentando algum relato ou pensamento importante no
desenvolvimento do tema. Outros fazem perguntas que serão respondidas na
extensão do texto. Outros, ainda, chegam a apresentar o plano de tratamento do
tema.
O importante é que a introdução apresente, implícita ou explicitamente, a idéia
central do texto, a transição para a segunda parte, o desenvolvimento.
Também no desenvolvimento de seu tema você deverá estar atento ao leitor. Este
deverá, no que concerne à significação do conteúdo:
1. identificar facilmente a(s) idéia(s) básica(s);
2. identificar facilmente as idéias que explicitam, que fundamentam, que apóiam
as idéias básicas;
3. perceber facilmente as relaçóes entre as idéias, dentro do texto.
No que se refere à organização, à síntese, à expressão, o leitor deverá encontrar:
1. orações sintaticamente bem formadas;
2. orações adequadamente relacionadas na composição dos períodos;
3. períodos claramente relacionados na constituição dos parágrafos;
4. parágrafos coerentemente relacionados no plano de desenvolvimento.
Assim você deverá ter sempre em mente a formulação de sua tese, de seu ponto
de vista, pro
67
curando os meios adequados para desenvolver suas idéias básicas. Deverá
pensar nos esquemas estruturais que vai adotar (síntese-análise-síntese, por
exemplo) nos recursos de que vai se valer. Deverá ligar adequadamente as
informaçôes que apresenta. Seu leitor deverá estar sempre atento à(s) idéia(s)
centra(is). O desenvolvimento deverá decorrer da introdução e deverá preparar a
conclusão.
No trabalho de relacionar orações nos períodos, períodos nos parágrafos,
parágrafos nas partes e partes no todo do texto você já sabe que tem nas
palavras das classes relacionais (preposições e conjunções), nos morfemas
gramaticais (pronomes adjetivos e advérbios) e nas outras palavras de referência
excelente instrumento. O rigor dessas ligações vai determinar, por exemplo, a
distribuição das informações nos parágrafos.
Na conclusão de um texto dissertativo você poderá valer-se de uma frase, de um
parágrafo e mesmo de mais de um parágrafo. A conclusão deverá decorrer
logicamente do desenvolvimento, ser significativa dentro do texto (isto é, não
deve ser dispensável). Você deverá deixar no leitor a impressão de que disse
tudo o que tinha para dizer, e mais, que disse tudo o que queria dizer.
Há muitas maneiras de concluir um texto. Você poderá, por exemplo:
1. retomar a idéia central, apresentando-a de maneira significativa em outras
palavras;
2. sumariar os pontos essenciais desenvolvidos nos parágrafos da segunda
parte;
3. enfatizar o significado de alguns pontos de vista do texto;
68
4. fechar o texto com uma história, uma citação que enfatize seus propósitos;
5. formular perguntas, deixando o tema em aberto para outras considerações.
Exercite o que aprendeu:
a) Escreva um paragrafo dissertativo sobre um jogo de futebol a que você tenha
assistido ou ouvido pelo rádio ou sobre algum comentário que você tenha lido no
jornal.
b) Faça uma dissertação com cinco parágrafos sobre um tema histórico
(Independência do Brasil, Proclamação da República, Descobrimento da Amêrica,
Revolução Francesa etc.). Procure definir o tema, ler sobre ele. Trace um plano,
faça o rascunho e depois redija. Não se esqueça do título.
3. RECURSOS APROPRIADOS PARA A
ELABORAÇAO DO TEXTO DISSERTATIVO
No trabalho de organização do texto dissertativo você poderá valer-se de vários
recursos, tais como:
3.1. analogia;
3.2. oposição ou contraste;
3.3. testemunho;
3.4. definição;
3.5. ilustração;
3.6. comparação.
Em um texto esses recursos talvez apareçam combinados, podendo ser
identificados, apenas, em nível de parágrafos. Contudo, se a intenção do
69
escritor é pôr em evidência, no texto, um desses recursos, deve, ao planejar as
idéias, fazer com que o escolhido seja uma constante nos vários parágrafos.
Identifique, nos exemplos a seguir, cada um desses recursos:
3.1. Analogia
O texto analógico é aquele que, para facilitar a compreensão do assunto, é
estruturado de modo a explicar algo desconhecido por meio de algo conhecido
ou algo não-familiar por meio de algo familiar. Ex.:
A jaula
O homem vive em sua jaula. A jaula não é uma casa, um apartamento, um
escritório, um quarto de hotel de luxo ou de pensão barata. A jaula é o próprio
homem. Exigua ou ampla, pouco importa: jaula. E nela vivem, em estranha
promiscuidade, as mais sanguinárias feras, as serpentes mais venenosas, os
batráquios mais repugnantes, ao lado dos animais domésticos, os pássaros
canoros, as aves da mais bela plumagem, os insetos mais deslumbrantes. O tigre
e o chacal, o cão e o gato, o pavão e a andorinha, o beija.flor e o rouxinol, a
borboleta e a mosca caseira, a cascavel e a pomba-rola, toda a arca de Noé, em
suma, cabe nessa jaula secreta e obscura, que é a alma humana.
Poderiamos chamar os habitantes desse jardim-zoológico de instintos,
sentimentos, emoções. Há instintos perigosos que dormitam a vida inteira, não
chegam a praticar nenhum ato violento ou repulsivo, mas, às vezes, abrem um
olho 50nolento, rosnam surdamente e recaem em sua letargia. São leões rugindo,
os lobos uivando.
Mais comum é ver-se o pavão abrir sua cauda em leque, dando um "show"
multicolorido de vaidade, ou o papagaio fazer um discurso incoerente, repetindo
fragmentos de 'sabedona decorada, sem saber o que diz. ~ meio ridiculo talvez,
mas inofensivo.
70
Bela é a jaula-viveiro, cheia de gorjeios de pássaros e esvoaçar de borboletas, a
alma dos puros, dos simples, dos amenos, encanto da vida, flor miraculosa da
criação. Mas não se iludam: mesmo nestas, há sempre um tigre adormecido, ou
uma serpente sonnando. O importante é não despertá-los. (29)
3. 2. Oposição ou contraste
Um texto cujo recurso empregado é a oposição ou contraste visa a explicar fatos,
idéias, comparando-as e apontando-lhes as diferenças. Um texto, estrututado por
meio de oposição, pode ser organizado das seguintes maneiras:
a) descreve-se o elemento comparante e, em seguida, os elementos comparados,
apontando os contrastes;
b) desenvolvem-se as idéias, comparando-as, ao mesmo tempo, e apontando os
contrastes. Ex.:
Reprodutor supimpa
Incrivel a reportagem final do "Fantástico" de domingo com João Domingos de
Araújo.
Curioso o paralelismo de vivências proporcionado pela reportagem. Primeiro
apareceu um "aplicador da lei": ar severo, cara dura, um óculos enorme a
simbolizar as mil repressões que a vida lhe impõs. Citou artigos, códigos,
parágrafos, principios morais. Era a figura da rigidez, do "não", da ilusão
moralista das chamadas classes dominantes. Um homem sério e de bem, isso é
inobjetável! Mas de certa forma a representação da antivida: a que se codificou.
De outro lado, a figura do João Domingos, 65 filhos, árvore cheia de sementes
que, soltas no ar, muito fecundaram. Talvez fora da lei certinha dos homens ou
fora da mora! convencional. Talvez responsável por colocar no mundo gente
2- Em O Estado de São Paulo, de 02/07/1974. Apud STARLING. José Nogueira ct
et alii, op. cit.
71
que não poderá criar, atender. amparar. não por culpa própria, mas por causa de
haver miséria. Porém nele estuavam: sabedoria, alegria natural, sagacidade
disfarçada. energia vital, simpatia, saúde, disposição, certeza de que o mundo é
feito de mistérios demais para que a vida seja uma sucessão de proibições e
"não podes" e "não deves". Adorável pecador! A representação da vida em suas
contradições. Mas vida vivida! Com integridade, saúde e disposição. As
sementes são soltas para a festa permanente da fecundação, Fecundam onde é
possivel e há condições.(30)
3- 3. Testemunho
Um texto que tenha como recurso o testemunho apresenta citações de opiniões
ou de julgamentos de especialistas, de pensadores, de estudiosos de um
assunto que nos tenham legado sua experiéncia. O testemunho pode confirmar
ou contrariar uma opinião que esteja sendo desenvolvida. Ex.:
Pombos tém "bússola" no organismo
A capacidade de orientação dos pombos durante o vôo se deve à existência, em
seu organismo, de cristais de magnetite, a mesma substáncia utilizada na
fabricação das primeiras bússolas. Esta surpreendente revelação foi feita re-
centemente por um grupo de cientistas americanos que encontraram vestígios de
magnetite no organismo dos pombos.
Muitos cientistas, porém, acham que os testes realizados não foram
suficientemente convincentes e reconhecem que o homem ainda não conseguiu
explicar de forma definitiva o que dá aos pássaros essa capacidade de orientaça-
o durante o vôo.
Segundo os cientistas, isso pode estar ligado a vários fatores, entre os quais a
direção do sol. Experiências realizadas recentemente demonstraram que os
pássaros submetidos a um pôr de sol artificial, dentro de um ambiente fechado,
oito horas antes do verdadeiro poente, ao serem soltos, ficam desorientados e
não encontram seus ninhos.
30 TÁVOLA. Arthur. Em O Globo, 23/04/1980.
72
No entanto, dizem os cientistas, os pássaros se utilizam de outros instrumentos
para sua orientação, do contrário não conseguiriam encontrar o ninho durante a
noite.
Outro fator de orientação dos pássaros que está sendo estudado são os sons de
baixa freqüêncía que, segundo os cientistas, são captados pelos pombos. De
acordo com os cientistas, esses pássaros utilizam sua habilidade de captar sons
de baixa freqüência para detectar sons característicos do lugar onde se encontra
seu ninho e assim conseguem orientar seu vôo.
Depois que foram encontrados vestígios de magnetite no organismo dos
pombos, os cientistas realizaram testes para tentar estabelecer ate que ponto
esses pássaros reagem de modo semelhante a uma bússola e essas pesquisas
mostraram alguns resultados incríveis.
Quando soltos em locais onde há as chamadas "anomalias magnéticas"
variações naturais do campo magnético da terra - Os pombos, exatamente como
as bússolas, perdiam seu senso de direção.
Apesar dessa prova, alguns cientistas ainda duvidam de que os pombos
carreguem verdadeiras bússolas em seu organismo e alegam que outras
variações, como a direção dos ventos ou a pressão barométrica, podem ter
perturbado os pâssaros durante os testes. (31)
3.4. Definição
A definição, como recurso para a elaboração de textos, exige que o redator se valha
de outros recursos para compor o produto final. Assim sendo, a ilustração, a
comparação, o contraste ou a analogia são recursos que subsidiam um texto
estruturado por meio da definição.
O que faz com que ela possa ser considerada um recurso é que todas as idéias
convergem para responder à pergunta: "O que isso significa?"
31. Em O Globo 10/06/1980.
73
Pode-se começar pela definição da palavra-chave do tema, por sua etimologia,
por sua acepção vulgar, por sua acepção técnica, ou pode-se explorar sua
ambigüidade. Ex.:
Será que existe um branco mais branco do que o branco?
Quem anda assistindo a televisão, verifique que dois sabões em pó estão
fartamente anunciados no video: o indefectível "Omo" e o "Viva", marca mais
recente e que vai ver é da mesma empresa multinacional do Omo, pois como o
leitor sabe, uma das estratégias de "marketing" de certos produtos é forçar uma
outra marca "concorrente", que pertence ao mesmo fabricante
O problema da concorrência do "Omo" com o "Viva" refere-se ao grau do branco.
O estudo de Roland Barthes mostra como faz parte da estratégia publicitária dos
sabões em pó atribuir certas propriedades, digamos "adjetivas", ao branco. (...)
Sim, se alguém definir o branco vai dizer ser ele um estado de total reverberação
de luz. O estado de brancura já é, em si, um estado total. O branco é um extremo
da escala cromática. O estado de branco já indica uma plenitude. Nada há de
branco, além do branco.
Pois a publicidade descobriu, vejam só, o branco mais branco! Depois evoluiu
para o branco "total". Não satisfeita com tal exaltação do branco adicionou-lhe o
"cheirinho de limpeza" (vide a atual propaganda do "Viva") onde "mais branco é
impossível". Mas a coisa não parou por ai e quem tem acompanhado a
peregrinação daquela "prova da janela" pelo Brasil afora, vai verificar que ao
branco "total" do "Orno", uma nova qualificação foi acrescentada: a radiação,
pois o anúncio atual fala em "branco total radiante". Não lhe bastou ser branco
(estado, por si, integral); virou branco "total". Mas como branco total poderia ser
pouco frente ao "mais branco impossível com cheirinho de limpeza" do "Viva",
eis que surgiu o "branco total radiante". Afinal: é ou não possível "mais branco"?
Um anúncio diz que sim. O Outro diz que não.
74
Radiante! Que palavra genial descoberta pelos publicitários. As cargas
imprecisas (aparentemente) desta palavra dão um valor objetivo e qualificativo a
um branco que já era total: radiante! A gente conhece a expressão radiante de
alegria, isto é, iluminado, irradiando e/ou refletindo luz. Ser radiante já empresta
ao branco uma nova propriedade, buscando-lhe uma associação com a alegria, o
êxito, a transmissão de uma sensação de luz, de glória. Aleluia! Que tal o branco
êxtase? Aleluia!
Se a gente quer manter sempre acesa a consciência critica das coisas, precisa
refletir sobre os processos que influem em nossa emoção, principalmente
aqueles - como a publicidade - inteligentemente conduzidos para espicaçar os
nossos gostos, vontades, impulsos e desejos mais remotos. Sem dúvida, a
opção entre o "cheirinho de limpeza" daquele sabão que dá a sua palavra de
honra que "mais branco é impossivel" e o branco que além de "total" é
"radiante", éuma opção muito dificil. A maquiavélica (no bom sentido do termo)
descoberta de que "cheirinho de limpeza" é realmente sedutor, se choca com as
fantasias em nós despertadas pelas características "radiantes" de um branco que
já era total (...)
Dessa maneira, o que antes era só branco (já uma grande vitória de qualquer
detergente), ficou branco total e agora já é branco total radiante. Pelo visto, com
a concorrência, vai continuar recebendo sobrenomes, como aqueles nobres de
antigamente. Ao chegar no ano 2000 será, talvez, branco-total-radiante-sabor-do-
-penetrante-ilurninado-acariciante-benfazejo-bem-querido-malemolente-com
gosto de Brasil. Envolvente-irisado-expressivo-divinatório-exclusivo-refulgente-
natural
Ai os publicitários se reunirão para discutir o excesso de adjetivos para aquilo
que, afinal de contas, é apenas tudo o que o "significado" branco contém. E
resolverão ficar somente com a expressão branco, sintética, condensada,
substantiva, precisa, concisa, com todos os significantes já contidos dentro dela.
Áí tudo começará de novo e novos "qualificativos" serão inventados para
estender e esticar um conceito que em si já diz tudo, porque assim como uma
rosa é uma rosa, uma rosa, uma rosa; um branco é um branco, um branco.
75
A menos que me tenha dado branco e eu não entenda mais nada. Branco total:
radiante. (32)
3.5. Ilustração
Um texto ilustrativo é aquele que apresenta a idéia central, explanada por meio
de exemplos bem escolhidos que sejam pertinentes e convincentes. Dados
estatistícos também fundamentam e concretizam as idéias abstratas. Ex.:
O bode: antes de tudo um forte
Introduzido no Brasil pelos colonizadores portugueses, o bode europeu sofreu,
aqui, várias mutaçôes genéticas que o tornaram capaz de sobreviver até mesmo
a longos periodos de seca na caatinga nordestina. Robusto, ágil, pouco exigente
com alimentação e água, ele se assemelha, em muitas de suas caracterlsticas, ao
homem do sertão.
Essa adaptabilidade fez do bode uma espécie de "estepe" na economia do
nordestino: criado á solta, cuidando de encontrar sua própria alimentação entre
folhas, galhos e cccca de árvores, constitui o recurso para as horas difíceis;
carne para a família e pele para a venda. Para dimensionar a importância desta
pecuária extensiva nas zonas semi-áridas, basta lembrar que Canudos núcleo
da ação rebelde liderada por Ántônio Conselheiro na primeira república, que
chegou a ser a segunda cidade baiana em população teve como uma de suas
principais bases econômicas a exportação da pele de bode para o mercado
inglês, através do comércio de Juazeiro.
Hoje pode-se dizer que, através dos séculos, o bode naturalizou-se nordestino:
pelo menos três raças, com características marcantes, já estão classificadas
(Moxotó, Canidé, Marota) e outras estão em estudo. Figura tão ou mais comum
que a humana na paisagem nordestina, confunde-se, às vezes, com o carneiro
(semelhante, porém menos resistente), no seu constante movimento, garimpando
folhas verdes entre a vegetação. Díversamente do boi, o bode não é
condicionado
32 TÁVOLA, Artur. Em O Globo, 19/04/1978.
76
a comer de cabeça baixa, o que amplia em muito suas possibilidades de
encontrar alimento fora das pastagens, no caso do sertão, muitas vezes,
inexistente.
Não há exagero em dizer que o sertanejo nutre pelo bode grande carinho e
gratidão, o que talvez explique a intenção de alguns habitantes do município de
Uauá, o de maior concentração caprina na Bania, de rebatizar a cidade com o
nome de "Bodolándia". Urna gratidão de quem sente de perto a miséria legada
pelas longas e freqûentes secas e o efeito paliativo da presença do bode. (33)
3.6. Comparação
Um texto que apresenta como recurso a comparação procura aproximar os
elementos que estão sendo comparados por meio do que eles têm de
semelhante. Tais semelhanças são reais, sensíveis, expressas numa forma verbal
própria em que entram normalmente os chamados conectivos de comparação
(tão, como, do que, tal qual), substituidos, às vezes, por expressões equivalentes
(parecer, lembrar, assemelhar-se).
Muitas vezes um dos elementos da comparação não é colocado explicitamente,
já que é amplamente conhecido pelo grupo social. Ex.:
Cientista estuda símios para entender os políticos
O Professor Roger Mastera, da Universidade de Darthmoutn, acaba de
desenvolver uma curiosa teoria sobre as chances de êxito em uma campanha
presidencial, com base no estudo dos geatos e dentes dos candidatos. Alérn
disso, o catedrático de Ciências políticas encontra, no comportamento dos
símios, fatores que ajudam a explicar certos rituais de políticos e eleitores.
33. Em O Globo.
77
Com a ajuda de um computador, Mastera analisa os efeitos da conduta fisica -
expressões faciais, maneirismos, postura em pleito. Na opinião do professor, o
comportamento visual é parte muito importante da evolução da imagem do
político como dirigente, e, após a eleição, contribui para que mantenha o domirilo
sobre os que o cercam.
Para o catedrático, ao lodo dos que escolhem um candidato pela ideologia, há
um grande número de votantes que usam apenas a intuição para procurar nele
qualidades de lider, e é ai que a "imagem" pesa nos resultados. Masters
recomendou, inclusive, ao independente Jobn Anderson, a quem deu assessoria,
que evitasse ter "uma aparência submissa".
A capacidade de domínio é comunicada de muitas formas, e uma delas é através
dos dentes, conforme explica o professor: "Se examinarmos fotos de políticos
verificaremos que o indício de domimo está presente no fato de que tanto os
dentes superiores como os inferiores são visíveis. Trata-se de um sinal de ira ou
alegria, mas de qualquer modo de intensidade de conduta".
Um outro caso: "os indivíduos se congregam em uma atmosfera 'carnavalesca',
exibem grande excitação, saúdam-se ruidosamente uns aos outros, e
concentram sua atenção no indivíduo que mais se destaca, antes de se
dispersarem". Como observa Masters, poderia ser uma descrição de uma
convenção partidária, no entanto é apenas a narrativa de um encontro de bandos
de chimpanzés (...)
Lembrando que se deve ter em conta as características animais do homem,
Masters afirma que grande parte do que ocorre em uma campanha política é
estritaniente biológico, uma comunicação não-verbal de ritos e posturas, pelos
quais o candidato chama a atenção para sua pessoa. Assim, procura apresentar-
se como um indivíduo mais importante, mais apto a exercer a liderança - tal como
a fazem os macacos.
Como os meios de comunicação são uma das principais formas usadas pelos
que aspiram ao poder para "chamar a atenção", o professor Mastera tem
examinado centenas de fotos de políticos em revistas e jornais. 34
34 Em O Globo 25/08/1950
78
V
Sintaxe de construção
Frase fragmentada é um pedaço de frase, resultante de má pontuação. Vejamos
um exemplo:
"Emerson Fittipaldi voltou a treinar com o seu novo carro. Apesar do fraco
desempenho da última corrida que o deixou em 20º lugar".
Ha neste exemplo duas orações:
1ª oração: "Emerson Fittipaldi voltou a treinar com o seu novo carro" - esta é uma
oração (composta de sujeito e predicado) que apresenta sentido completo;
constitui, portanto, uma frase integra.
2ª oração: "Apesar do fraco desempenho da última corrida que o deixou em 20º
lugar" - esta oração, para ter sentido, precisa relacionar-se à oração anterior. Ela
sozinha constitui apenas um "pedaço" de uma informação.
Esta oração (a 2ª) apresenta no início um adjunto adverbial.
Veja:
a) "Apesar do fraco desempenho da última corrida"
- é um adjunto adverbial de concessão em re-
81
lação à 1 oração e não admite, portanto, um ponto entre ele e a oração. Caso leve
ponto, torna-se um fragmento de frase.
b) "... que o deixou em 20º lugar" é uma oração que só se completa se inserida
no período, porque o pronome relativo exige um antecedente. Caso esta oração
seja pontuada inadequadamente, ela resultará em um fragmento de frase.
Uma vez identificado o fragmento de frase, podemos corrigi-lo:
a) Ligando-o à frase a que pertence, por meio de pontuação adequada: "Emerson
Fittipaldi voltou a treinar com o seu novo carro, apesar do fraco desempenho da
última corrida que o deixou em 2º lugar".
b) Dando uma nova redação à frase, sem deixar, contudo, de observar a
pontuação:
1. "Apesar do fraco desempenho da última corrida que o deixou em 20º lugar,
Emerson Fittipaldi voltou a treinar com o seu novo carro".
2 "Embora tivesse apresentado, na última corrida, um fraco desempenho que o
deixou em 20º lugar, Emerson Fittipaldi voltou a treinar com o seu novo carro".
3. "Emerson Fittipaldi, apesar do fraco desempenho da última corrida que o
deixou em 20º. lugar, voltou a treinar com o seu novo carro".
e) Transformando o fragmento de frase em frase completa:
"Emerson Fittipaldi voltou a treinar com o seu novo carro. Na última corrida,
Emerson apresentou um fraco desempenho que o deixou em 20o. lugar".
82
Trezne:
Reescreva o texto abaixo, corrigindo-o e transformando-o em uma única frase.
"As três da madrugada de domingo. Enquanto a cidade dormia tranquilizada pela
vigilância tremenda do Governo Provisório, foi o Largo do Paço teatro de uma
cena extraordinária. Presenciada por poucos, tão pungente, quanto foi simples e
breve".
A construção de uma frase obedece a estas ordens:
a) Ordem sintática
Resulta da disposição dos elementos na frase, segundo sua função sintática:
(a) sujeito + (b) verbo + (c) atributo ou complemento + (d) circunstâncias. Esta é a
ordem direta, característica da língua portuguesa.
Exemplo:
(a) Esmeralda de Jesus Freitas (b) ganhou (c) uma das cinco medalhas de ouro
(dl) no Campeonato Sul-Americano de Atletismo-menores (d2) em Quito.
A ordem inversa é um recurso constante na língua, pois é por meio dela que se
pode dar mais ênfase às idéias. Caracteriza-se por apresentar qualquer termo
sintático fora de sua posição normal.
83
Vejamos alguns esquemas para se obter ordem inversa. Aproveite cada esquema
dado e reescreva a frase acima em ordem inversa. Atente para o emprego da
vírgula. (35)
d1 + d2 + a + b + e
d2 + d1 + a + b + e
a + d1 + d2 + b + c
a + b + d1 + d2 + c
a + b + d2 + c + d1
b) Ordem lógica
Resulta da disposição das palavras na frase, segundo a importância das idéias.
uma maneira de dar ênfase à estrutura que se quer pôr em relevo, dentro do
período.
Exemplo:
1. Se se quiser dar maior ênfase à inauguração da obra, no trecho abaixo, o
período deverá ser redigido de modo que a estrutura em ênfase apareça no inicio
da frase:
35 Vejo o capítulo seguinte.
84
"Foi inaugurado, há alguns dias, pela prefeitura, o canil modelo municipal,
considerado obra indispensável para a melhoria das condições sanitárias de
Manaus".
2. Se se quiser dar ênfase ao canil, a redação será:
3. Se se quizer dar ênfase ao tempo de inauguração, a redação será:
4. Se se quiser dar ênfase à importância da obra:
5. Se se quiser dar ênfase á prefeitura:
Muitas vezes a ordenação lógica da frase exige a presença de um pronome
relativo. Para evitar confusões o pronome relativo deve colocar-se imediatamente
depois de seu antecedente.
Exemplos:
1. Errado
Podem comer merenda escolar gratuita os alunos cujos país são carentes de
recursos e que não possuem condições de alimentarem-se em casa.
2. Certo
Podem comer merenda escolar gratuita os alunos que não possuem condições
de alimentarem-se em casa e cujos pais são carentes de recursos.
85
Treine o encaixe de pronome relativo.
1. Reúna as orações de cada grupo abaixo num só período, convertendo a
segunda oração em subordinada adjetiva introduzida pelos relativos. Há casos
em que é necessário colocar preposição.
1.1. Foi detectada por astrônomos da Universidade da Califórnia a explosão de
uma estrela gigantesca. A explosão pode produzir um buraco negro, espécie de
abismo gravitacional no espaço. Nem a luz pode escapar do abismo gravitacional
no espaço.
1.2. A exposição em homenagem ao humorista
J. Carlos fez parte das festas. A exposição foi organizada pela Propaganda
Estrutural. A exposição teve patrocínio da Servenco. A exposição teve produção
da Lithos. As festas comemoraram o centenário de nascimento do famoso
caricaturista.
1.3. Durante o período, Inês, professora de ginástica, aprendeu tudo sobre o
corpo. No período, estudou na Europa.
1.4. Restos de seres humanos esquartejados foram encontrados em uma
caverna. Os restos atestam antropofagia pelos homens de Neanderthal. Pela
caverna transitavam homens da idade da pedra.
2. Complete os períodos abaixo com orações subordinadas adjetivas que se
coordenem:
2.1. O álcool é um combustível que () mas que ()
86
2.2. A Nova Constituição brasileira será uma lei que () ou que ()
2.3. "Videogame" é um jogo eletrônico que () e que ()
e) Ordem harmoniosa (harmonia na colocação da idéia)
A falta de harmonia decorre do emprego abusivo de expressões coloquiais entre
as idéias do texto.
Para se obter harmonia na frase devem ser evitadas construções como:
1. No que diz respeito à minha pessoa, eu respondo impetuosamente... (No que
tange... Destarte... etc.).
2. Em lá chegando ainda encontrei todos reunidos.
Em vez das construções anteriores, devemos usar:
1.1. Eu respondo por mim (ou pelos meus atos)
2.1. Quando lá cheguei, ainda encontrei todos reunidos (ou Ao chegar lá, ainda
encontrei todos reunidos).
O uso abusivo de gerúndio também prejudica a harmonia da frase.
Vejamos o exemplo seguinte:
"Continuando a ser feminina, cuidando sempre de sua aparência, saúde e boa
conduta, contri-
87
buindo assim para o enriquecimento espiritual e material da família, tornando seu
mundo bem mais humano, cheio de alegria".
Neste exemplo, o exagero no emprego do gerúndio prejudicou a clareza e a boa
construção da frase, porque:
1 - criaram-se desnecessariamente quatro fragmentos de frase;
2. esqueceu-se da oração principal, conseqüentemente não se sabe de quem se
está falando;
3- camuflou-se o sentido da frase, comprometendo-se, desta forma, a mensagem.
Para empregar-se corretamente o gerúndio, é fundamental que se saiba que o
gerúndio expressa simultaneidade de ação com outro verbo.
Exemplos:
1 - O pintor trabalhava assobiando.
2. Durante muito tempo, ele vagou pela rua pedindo esmolas.
3 - Entrou no palco cantando. simultânea:
Em todas as três frases acima há ação simultânea:
1. assobiava ao mesmo tempo que trabalhava;
2 - pediu esmolas enquanto vagou...
3 - cantava ao mesmo tempo que entrava...
Nas frases seguintes, o emprego do gerúndio está incorreto porque não há
simultaneidade de ação:
1. O foguete foi lançado ontem, entrando felizmente na órbita prevista.
88
2. O médico recebeu o telefonema, dirigindo-se imediatamente para a casa do
paciente.
As ações não são simultâneas, pois:
1. o lançamento do foguete e a entrada na órbita não são simultâneos;
2. o recebimento do telefonema não foi feito a caminho.
De que maneira poderemos escrever estas frases sem que apresentem erros de
construção?
Reescreva-as:
Note que, quando usado com valor estilístico, o gerúndio pode surtir efeitos
agradáveis, como neste exemplo de publicidade:
"Arrancando, correndo, brecando, desviando, reduzindo. É preciso muita garra
para enfrentar o dia-a-dia".
(Propaganda de um pneu X).
Vejamos o que nos dizem Gladstone Chaves de Melo e Rodrigues Lapa a respeito
do gerúndio:
"O gerundio é intemporal e aspectualmente durativo. constitul, por isso,
importante recurso estilístico, válido à medida que é bem empregado
gramaticalmente (...) Muitas Vezes os autores não sabem bem que fazer dessa
forma verbal e usam-na a torto e a direito, principalmente, a torto, deixando tudo
no ar, no vago, no inacabado".(36)
"Não abusemos do gerúndio, mas não hesitemos em empregá-lo, sempre que o
reconheçamos superior a outros modos de escrever". (37)
36. MELO, Glodstone Chaves. Ensaio de estilística do língua portuguesa. Rio,
Padrão, 1976, p. 171.
37 RODRIGUES LAPA, M ESTILÍSTICOo da língua portuguesa. Rio, Acadêmico,
1970, p. 164.
89
Para concluir este nosso estudo, podemos verificar que as conjunções são
elementos importantes para o estabelecimento de conexão entre as idéias. A
ausência da conjunção gera frase fragmentada.
Vejamos um exemplo:
Próximo à barragem do Rio Descoberto, a terra está-se tornando ponto de
atração. A terra pega fogo. Pode-se assar uma batata em poucos minutos.
Diversas pessoas, curiosas com o fato, chegaram até a cavar o chão em busca
de uma explicação.
Reescreva o trecho, transformando-o em uma única frase, por meio da inserção
de conectivos
Treine mais;
Utilize-se dos fragmentos de frase e das orações e elabore períodos completos
(frases íntegras), por meio da inserção de conjunções.
1. Cada cidadão motorizado se conscientizasse de que o passeio é do pedestre.
Os motoristas respeitassem as posturas legais, não invadindo faixas destinadas
a veículos especificos. O caos urbano da cidade seria reduzido à metade.
2. Os poucos japoneses não são capazes de vestir o quimono da maneira correta.
Os poucos japoneses têm condições financeiras para comprá-lo. Vestir o
quimono é uma verdadeira arte.
90
3. A abelha rainha vive cm média cinco anos. Ao morrer, as próprias operárias
escolhem uma larva de até três dias, para substitui-la. A larva é alimentada com
geléia real.
4. As televisões façam grande esforço para defender e potencializar os valores
brasileiros. Não existem condições reais para impedir a veiculação de
"enlatados". A influência das multinacionais é muito grande.
91
VI
A virgula no contexto sintático
A vírgula assume uma grande relevância na marcação de pausas sintáticas na
frase.
Para que se compreenda o real valor do emprego da vírgula, deve-se reconhecê-
la como sinal e com função distinta de:
a) separar termos dentro do período;
b) isolar termos intercalados ( ou seja, fora de sua posição normal) dentro do
período.
Tanto para separar, quanto para separar elementos, a vírgula assume
configuração específica a cada emprego.
Ao separar elementos, normalmente de mesma função sintática, a vírgula deve
ser interpretada como uma só [,] mesmo que se faça necessário usar duas ou
três etc. Assim:
1. Pedro estuda matemática, física e inglês.
2. Pedro estuda matemática, física, inglês e francês.
As virgulas empregadas para separar matemática de física e física de inglês
devem ser interpretadas como vírgulas individuais que serão tantas quantos
forem os elementos da enumeração.
Ao isolar elementos, a vírgula deve ser interpretada como uma dupla {,,} que não
pode desfazer-se, sob pena de transformar-se em sinal de separação. Exemplo:
Maradona, quando recebeu o trofeu, beijou-o solenemente.
Se se cometer o deslize de colocar a vírgula somente após Maradona, esta estara
separando o sujeito do resto do período, consequentemente, do seu predicado
beijou-o.; o mesmo raciocínio vale para o erro de colocar-se a vírgula apenas
depois de troféu. Em síntese, pode-se dizer que a circunstãncía temporal
intercalada entre o sujeito Maradona e o predicado beijou-o solenemente deve
ficar isolada, já que se encontra fora de sua posição normal, que é ao final do
período. Entenda-se a vírgula dupla como se fora parênteses e ai não haverá
erro, pois ninguém abre parênteses sem fechá-lo, mas não se queira substituir a
vírgula por parêntese, uma vez que este tem uso específico e aquela também.
É fato que, muitas vezes, uma vírgula que isola tem o "ar" da que separa, como
no exemplo:
Esmeralda Freitas, no Campeonato de Atletismo-menores, em Quito, ganhou uma
medalha de ouro.
As vírgulas da frase são assim analisadas:
a) as vírgulas de após Freitas e de após menores são duplas, pois isolam a
circunstância de lugar;
93
b) as vírgulas de após menores e Quito são duplas, pois isolam outra
circunstância de lugar;
no entanto, pode-se querer entender a vírgula de após menores como que
separando uma circunstância de outra, o que parece, mas não é verdadeiro.
Utilizem-se parênteses, em vez de vírgulas, e veja-se o resultado:
Esmeralda Freitas (no Campeonato de Atletismo-menores) (em Quito) ganhou
uma medalha de ouro. E não:
Esmeralda Freitas (no Campeonato de Atletismo-menores em Quito) ganhou uma
medalha de ouro.
Ora, se ocorre duas vezes abertura e fechamento de parênteses é porque deve
ocorrer duas vezes o mesmo com a vírgula, porém não se colocam duas vírgulas,
uma ao lado da outra imediatamente, para fins de abertura e fechamento de
pausa, o que hipoteticamente seria assim:
Esmeralda Freitas, no Campeonato de Atletismo-menores,, em Quito, ganhou
uma medalha de ouro.
Infere-se, pois, que duas vírgulas imediatas passam por um fenómeno como o da
crase e resultam em uma só com dupla interpretação: fecha o isolamento do
termo anterior e, ao mesmo tempo, abre o isolamento do termo seguinte.
O emprego da vírgula, na língua portuguesa, quer para separar termos, quer para
isolá-los, ora se baseia em regras síntáticas, ora em aspectos
94
enfáticos. Para que se desfaça qualquer confusão, relacionamos seus empregos:
a) Apoiada em regras sintáticas, emprega-se a vírgula para se parar:
1. Vários sujeitos, vários predicados, vários objetos, vários adjuntos ou várias
orações assindétícas:
- Pai, mãe, filhos e avós foram à (38) Igreja rezar.
- Paulo pegou a chave, ligou o carro, despediu-se da família e desapareceu.
- Meu irmão chegou ontem, as 17 horas.
2 Estruturas sintáticas paralelas de provérbios:
- Quem tudo quer, tudo perde.
- Em terra de cego, quem tem um olho é rei.
b) Apoiada em aspectos enfáticos, emprega-se a vírgula para separar:
1. Orações coordenadas, em especial, as adversativas e as conclusivas:
- Não tem dinheiro, mas o pouco que tem aplica em letras.
- O que você diz não se escreve, portanto sai de minha frente.
2. Orações subordinadas, em especial, as consecutivas, comparativas, as
reduzidas de gerúndio e de particípio:
- O torcedor gritou tanto, que ficou rouco.
- O cachorro agradava a visita, lambendo-lhe as mãos.
38. Ler sobre crase no capitulo seguinte.
95
3. Nome de localidades em datas:
- Brasília, 30 de junho de 1986.
4. Número de documentos da data de expedição:
- Lei n 2.418, de 15 de janeiro de 1986.
c) Apoiada em regras sintátícas, usa-se a vírgula para isolar:
1. Orações adverbiais, orações reduzidas, adjuntos adverbiais, intercalados, já
que a posição normal destes elementos é no final da frase:
- O atleta, na partida de futebol, quebrou o braço.
- O pediatra, embora tivesse razão, ouviu pacientemente a reclamação dos país
da criança.
2. O aposto:
- Marcos Aurélio Freitas, Deputado Federal, terá o seu projeto votado.
3. O vocativo:
- Saibam, senhores cursístas, a verdade Sobre a situação.
4. Conjunções (mas, porém, logo, pois etc.) deslocadas para o meio da oração
que introduzem:
- Ele disse que não vira o amigo naquela sala, a verdade, porém, veio à tona.
5. Orações adjetivas explicativas:
- O Brasil, que é nossa pátria, merece tudo de nós.
96
a) Apoiada em aspectos enfáticos, usa-se a vírgula para isolar:
1. Certas expressões, como isto é por exemplo, ou seja, a saber, inclusive etc.
- Os mitos narram a -história do sagrado, isto é, de coisas concernentes à
religião, aos ritos, ao culto.
Usos ESPECÍFICOS DA VIRGULA
a) Emprega-se a vírgula, na frase, para indicar a elipse de um termo:
- Eu viajo para Manaus e tu, para Belém.
b) Antes de etc. a vírgula não deve ser usada, pois a expressão latina et cetera
significa "e mais , e outros". Modernamente, contudo, o sentido diacrõnico da
expressão esvaziou-se e têm-se feito freqüente uso desta pontuação antes de
etc.
- O aniversário do clube será comemorado com jogos, gincanas, shows etc.
c) O adjunto adverbial intercalado exige vírgula; no entanto, quando este se
constituir de uma palavra ou de locução, o emprego da vírgula se faz livre, exceto
com sim (que exige a vírgula) e com não que a rejeita, por questões semânticas.
Ex.:
- Eu não vou à festa. (negativa)
- Eu, não, vou à festa. (afirmativa)
d) Empregos especiais da vírgula com e ou ou.
97
1. O emprego da vírgula antes do e.
1.1. Separam-se as orações sindéticas aditivas iniciadas por e quando tiverem
sujeitos diferentes:
Veio o dia do desfile, e a jovem vestiu-se como uma rainha.
2. Vírgula depois do e.
2.1. Quando seguido de uma intercalação:
- Jorge foi aprovado e, por isso, ganhou um carro.
3 Virgula antes e depois do e.
3. 1. Quando houver sujeitos diferentes e intercaIação depois do e:
Carlos ganhou uma viagem para São Paulo, e, porque ganhou o primeiro prêmio,
João viajou para o exterior.
4. Vírgula antes de ou.
4 .1. Quando o ou estiver repetido, indicando alternativa ou retificação do
pensamento:
- Ou faz o curso completo, ou tranca a matrícula. (39)
39 os conceitos emitidos neste capitulo são de tolal responsabilidade da amora.
98
VII
Conversando sobre crase
Crase, palavra originariamente grega, significa fusão de dois sons vocálicos
contíguos. O latim absorveu este fenômeno e, na passagem do latim popular para
o português, palavras como Sede > See > Sé ou legere > leer > ler, ao perderem
os fonemas consonantais mediais, aproximam os dois sons vocálicos idênticos,
os quais resultam em crase.
No português atual, crase é também fusão de dois sons idênticos, restringida
tão-somente as seguintes regras básicas:
a) fusão da preposição a + a(s) artigo definido feminino;
b) fusão da preposição a + a(s) pronome demonstrativo feminino. Este a, no
singular ou plural, normalmente antecede o pronome relativo ou a preposição de.
Na verdade, trata-se de um equivalente ao pronome demonstrativo aquela(s);
c) fusão da preposição + a inicial de aquela(s), aquele(s), aquilo.
Para que ocorra crase é necessário haver um termo regente que exija presença
da preposição
99
a, por um lado e, por outro, um termo regido, que é uma palavra feminina
antecedida do artigo definido feminino no singular ou no plural. Só assim pode
haver contigüidade de sons e, conseqüentemente, crase.
Ouve-se com frequência dizer-se que em tal frase ocorre a craseado. Entende-se,
imprecisamente, como a craseado aquele marcado com o acento grave. Ora, a é
craseado se tiver sofrido fusão de sons e, em decorrência disso, leva a marca
gráfica, que é o acento grave. Aliás, é essa a única função, atual, desse acento.
Assim sendo, convém distinguir o uso do acento grave em duas situações
distintas:
a) o uso do acento grave para marcar que sons contíguos passaram por crase.
Neste caso, ele marca um fenômeno resultante de regência;
b) o uso do acento grave para marcar locuções femininas e expressões que
indicam hora, que, na historia da língua, o acento cristalizou-se. Neste caso, em
uma análise sincrônica, o acento não marca fenômeno resultante de regência,
logo, o a acentuado não sofreu crase.
Com base nas informações anteriores, podem-se interpretar, sob o ponto de vista
regencial, as regras que determinam os usos obrigatório e facultativo e, também,
os casos especiais do acento grave, marcador da crase:
100
a) USO OBRIGATÓRIO
Resultante de regência:
1. Termo regente seguido de preposição a + a(s) artigo definido que antecede o
substantivo feminino, como em:
- Recomendou-se à (a + a) secretária uso correto da máquina.
2. Termo regente seguido de preposição a + a(s) artigo definido que antecede o
pronome possessivo substantivo feminino, como em:
- Para o trabalho, aceitou sua irmã, mas fez objeção à (a + a) minha.
3. Termo regente seguido de preposição a + a(s) pronome demonsirativo
substantivo feminino, como em:
As observações eram muitas. O rapaz esteve alheio às (a + as) que lhe diziam
respeito
4. Termo regente seguido de preposição a + a dos pronomes demonstrativos
aquela(s), aquele(s), aquilo, como em:
- Dirigi-me àquele (a + aquele) professor com o intuito de elogiá-lo.
101
Acento grave cristalizado:
1. Nas locuções prepositivas, adverbiais e conjuntivas femininas, como em:
- Estive no garimpo à procura de ouro.
- Fábio faz gol à maneira de Pelé. Esta mesma frase pode ser usada eliminando-
se o substantivo e a preposição maneira de, contudo o a acentuado permanece:
Fábio faz gol à Pelé.
- A noite, a temperatura é mais agradável.
- Geme, à medida que sente dor.
2. Nas expressões numéricas que indicam hora, como em:
- Pegou o avião à uma hora da tarde.
- Sairemos às três horas para a Universidade.
b) USO FACULTATIVO
1. Termo regente seguido de preposição a + a artigo definido que antecede o
nome próprio feminino,
como em:
- Remeti os documentos à (a + a) Rita.
ou
Termo regente seguido de preposição a + nome próprio feminino não antecedido
de artigo como em:
- Remeti os documentos a (a + O) Rita.
102
2. Termo regente seguido de preposição a + a(s) artigo definido que antecede o
pronome possessivo adjetivo, como em:
- O sol das 11 horas é prejudicial à (a + a) sua filha.
ou
Termo regente seguido de preposição a + pronome possessivo adjetivo não
antecedido de artigo, como em:
- O sol das 11 horas é prejudicial a (a + O) sua filha.
3. Com a expressão até a + a(s) artigo definido que antecede um substantivo,
como em:
- Chegou até às (a + as) raias da loucura.
ou
Com a expressão até a + substantivo não antecedido de artigo, como em:
- Chegou até a (a + O) beira do abismo.
ou
Com a preposição simples até + artigo definido que antecede um substantivo,
como em:
- Chegou até a (O + a) beira do abismo.
103
e) CASOS ESPECIAIS
Os casos considerados especiais inserem-se, na verdade, na regra geral, a saber,
termo regente que exija preposição a + a(s) artigo definido feminino que antecede
um substantivo.
O que há de especial nesses casos é que as regras exigem interpretação morfo-
semântica para serem melhor compreendidas, pois, além de os termos regentes
e regidos possuírem sons contíguos próximos, é necessário que o termo regido
venna acompanhado de determinante, como em:
- Irei à (a + a) Casa dos Parafusos.
determinante de Casa
- Referi-me à (a + a) Copacabana de meus sonhos.
determinante de Copacabana
- Chegamos à (a + a) terra de nossos avos.
determinante de terra
Para concluir esta nossa conversa tratemos de regência e oposição de sentido.
Há diferença de sentido entre frases se o termo regente vier ou não seguido de
preposição.
1. Quando o termo regente exige preposição a + a(s) artigo definido que antecede
um substantivo, a frase apresenta um sentido, como em:
- Bati à (a + a) porta da vizinha.
- Marta deu à (a + a) luz uma bela menina.
104
2. Quando o termo regente não se faz seguir de preposição, mas somente do
artigo definido que antecede o substantivo, a frase apresenta outro sentido,
como em:
- Bati a (O + a) porta de minha casa.
- A operação de córnea deu a (O + a) luz aos olhos da criança.
3. Quando o termo regente não se faz seguir de preposição, bem como não
ocorre artigo diante do substantivo, a frase apresenta outro sentido, como em:
- Está acostumada a bater O (O + O) rua.
- A beleza de Luisa deu O (O + O) luz ao ambiente.
105
VIII
Temas sugeridos para redação
Os temas seguintes, adaptados de textos sobre o assunto, servem como
sugestões para elaboração de redações paralelas no decorrer do curso.
Antes de redigir convém:
a) fazer leitura sobre o tema a ser trabalhado;
b) planejar o texto, atentando para os itens a serem argumentados;
c) escolher, entre dois, o recurso que melhor se adapte ao desenvolvimento de
um bom texto;
1. Disserte sobre: "Os problemas do meio ambiente e dos recursos naturais só
serão equacionados em termos de planejamento global, atingindo as esferas
social, política, econômica e educacional".
Argumente:
- a Mata Atlântica como espécie endêmica;
e a relação chuva e relevo;
- os programas de extensão universitária como política educacional salvadora de
espécies de seres vivos.
Recurso: ilustração ou comparação.
106
2. Disserte sobre: "O corte no dispêndio dos gastos governamentais como forma
de reduzir o déficit parece, em princípio, equivocada".
Argumente:
- o déficit como distorção da economia brasileira;
- o ajuste da economia brasileira aos interesses norte-americanos;
a linearidade da linha de atuação do FMI.
Recurso: testemunho ou ilustração.
3. Disserte sobre: "Tudo o que é jurídico é moral, mas nem tudo o que é moral é
jurídico".
Argumente:
- o campo da moral que não se confunde com o campo jurídico;
- a moral como mundo da conduta espontãnea;
- a incompatibilidade entre moral e violência.
Recurso: oposição ou definição.
4. Disserte sobre: "O solo precisa ser encarado como uma coisa permanente;
precisa ser olhado como uma herança que passa de pai para filho".
Argumente:
- o solo como reservatório de alimentos;
- o uso do solo e seus interesses;
- o solo e os agentes de erosão.
Recurso: ilustração ou comparação.
5. Disserte sobre: "As constituições não são leis estáticas; o que importa é ser a
Constituição uma lei que configure o pensamento da Nação".
107
Argumente:
- deputados e senadores exercendo atribuições constituintes;
- importância da convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte;
- o Congresso diante da feitura de uma lei.
Recurso: oposição ou ilustração.
6. Disserte sobre: "Na época em que se esboçavam os fundamentos da futura
independência do Brasil, sentia-se a necessidade de um reformador, capaz de
desenvolver trabalho de proselitismo em torno de teses sujeitas à veemente
oposição dos que sentiam a tessitura das relações comerciais, formada através
de séculos, entrar em colapso, ameaçando posições monopólicas".
Argumente:
as idéias de Smith - "A riqueza das nações" - e seu curso no Brasil;
Smith e o sentido de liberdade;
o pensamento de Smith e o monopólio colonial.
Recurso: testemunho ou ilustração.
7. Disserte sobre: "A primeira vista, confunde-se fato jurídico com ato jurídico; a
verdade é que um não existira sem o outro".
Argumente:
a ação como asseguradora de direito;
a relação de perecimento entre o direito e seu objeto;
as pessoas relativamente e absolutamente inca pazes diante de ato da vida civil.
Recurso: comparação ou oposição.
108
8. Disserte sobre: "A contabilidade tem como objetivo o estudo e o controle do
patrimônio das entidades econômicas, a fim de fornecer informações sobre sua
composição e suas variações qualitativas e quantitativas".
Argumente:
o patrimônio como objeto da contabilidade;
a contabilidade como linguagem da empresa;
contabilidade e escrituração.
Recurso: comparação ou ilustração.
9. Disserte sobre: "As pessoas serão classificadas como melhores ou piores em
virtude de suas posses e conforme o padrão de opulência que estiver em voga
numa determinada sociedade".
Argumente:
a autoridade dos ricos como estrutura real do poder;
o Governo dos mais sabios em detrimento de outros;
o fator econômico como dirigente e determinador dos demais aspectos da
sociedade.
Recurso: oposição ou testemunho.
10. Disserte sobre: "O âmbito da matemática cresceu, a partir das escassas
habilidades de calculo do egípcio Ahmes e dos primeiros e timidos teoremas da
geometria dos gregos, até a ampla e completa rede de teoremas".
Argumente:
a palavra-função na matemática;
os valores admissíveis de função;
a moral da matemática que impõe contradições.
109
Recurso: testemunho ou ilustração.
11. Disserte sobre: "O engenheiro, para ser um profissional competente, deve ter
seus conhecimentos além das ciências físicas e da tecnologia, estendendo-se
pelos campos da economia, da sociologia e da psicologia".
Argumente:
- capacidade do engenheiro de chegar a conclusões inteligentes;
- a dúvida sistemãtica em relação ao "como" e ao "porque";
- a importância da engenharia para a segurança nacional.
Recurso: ilustração ou comparação.
12. Disserte sobre: "A função do grupo de marketíng de uma empresa esta
relacionada ao desempenho de certas atividades essenciais".
Argumente:
- a função de oferecer produto;
- a política de merchandísíng como subsistema de oferecimento;
- a função do administrador como administrador do futuro.
Recurso: ilustração ou analogia.
13. Disserte sobre: "Paulo Freire pensou que um método de educação construído
em cima da idéia de um dialogo entre educador e educando não poderia começar
com o educador trazendo pronto, do seu mundo, do seu saber, o seu método e o
material da fala dele".
110
Argumente:
- a ação dialogal como prática usual;
- o universo vocabular como realidade social no imaginário do educando;
- aquele que estuda como sujeito do ato de estudar.
Recurso: comparação ou ilustração.
14. Disserte sobre: "Um computador é uma máquina extraordinariamente
complexa que armazena sinais elétricos que representam números".
Argumente:
- o célebre chip de sílicio;
- por que os computadores são tão úteis?
- os robôs como substitutos dos trabalhadores.
Recurso: definição ou ilustração.
15. Disserte sobre: "Compete àquele que trabalha no campo do design a tarefa de
desalojar da mente do seu semelhante todos os preconceitos sobre a arte e os
artistas".
Argumente:
- valor psicológico do objeto projetado;
- o design e o styling;
- a naturalidade do designer e a natureza das coisas.
Recurso: ilustração ou analogia.
16. Disserte sobre: "O estudo das ideologias raciais no Brasil nos fornece
oportunidades para analisar a dinâmica da mitologia social, pois os mitos sociais
são constantemente criados e destruidos".
111
Argumente:
- o Brasil como uma democracia racial;
- os benefícios de brancos e negros com o mito;
- o candomblé e o samba no contexto dos preconceitos.
Recurso: oposição ou ilustração.
17. Disserte sobre: "Ao educar, já estamos nos apoiando em valores que
pressupõem a nossa visão do mundo e a nossa visão da educação enquanto
processo de formação humana".
Argumente:
- o ato educativo como interação (entre educador e educando) para realização de
valores;
- a relação de status entre educador e educando;
- a imaginação e a criatividade do professor como forma de atingir objetivos
sociais.
Recurso: comparação ou ilustração.
18. Disserte sobre: "O concurso do Plano de Brasilia ofereceu aos arquitetos
brasileiros a oportunidade para formular propostas realmente renovadoras para o
planejamento urbano brasileiro e com amplitudes de vistas dos problemas de
implantação de arquitetura urbana".
Argumente:
- os princípios da "planta-livre" x a orientação frente-fundo dos projetos;
- a construção de Brasília como experiência arquitetônica e urbanística deste
século;
- a tendência à verticalização dos prédios de Brasilia e ordenação de paisagem.
112
Recurso: ilustração ou comparação.
19. Disserte sobre: "Quanto mais profundamente os bibliotecários conhecerem
todos os níveis e todas as possíbilidades de leitura individual na comunidade,
mais criteriosamente poderão exercer a seleção de livros, e o serviço
bibliográfico poderá ser realizado de maneira mais eficiente".
Argumente:
- pessoas e livros, pólos positivos e negativos, como fluxo de serviço
bibliotecário;
- a biblioteca pública como parte integrante da atividade da comunidade;
- a seleção de livros como demanda e fornecimento.
Recurso: ilustração ou comparação.
20. Disserte sobre: "Os meios de comunicação social constituem,
paradoxalmente, meios de elite e de massas".
Argumente:
- a sociedade ao alcance dos meios de comunicação;
- os meios de comunicação social como meios de elite;
- a imprensa como meio de comunicação de elite e de massa.
Recurso: ilustração ou comparação.
21. Disserte sobre: em Língua portuguesa e realidade brasileira, de Celso Cunha,
declara-se:
"Não existe o bem nem o mal, a correção nem
113
a incorreção; o falar de cada um é tão legítimo
e irrepreensível como o de qualquer suposta autoridade, e toda intromissão é
daninha".
Argumente:
- o povo como possuidor de soberania em matéria de linguagem;
- as normas lingüísticas como normas coercitívas;
- o vale-tudo na nova gramática de Cunha e Cintra e a reação dos gramáticos da
velha guarda.
Recurso: ilustração ou oposição.
22. Disserte sobre: "A universidade brasileira ingressou, há alguns anos, num
processo de progressivo e acelerado esvaziamento".
Argumente:
- as correntes democráticas e o fracasso no ensino superior;
- a política universitária voltada para o capital estrangeiro;
- rendimento escolar e elitização.
Recurso: testemunho ou ilustração.
114
Bibliografia auxiliar
BARRASS, Robert. Os cientistas precisam escrever. Guia de redação para
cientistas, engenheiros e estudantes. S. Paulo, EDUSP, 1979.
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. S. Paulo , Cia. Ed. Nacional,
1980.
BLIKSTEIN, Izidoro. Técnicas de comunicação escrita S. Paulo, Ática, 1985.
BROOKS WARREN. Modem Rhetoric. Nova lorque, Harcourt, 1961.
CAMARA JR., Joaquim Mattoso. Manual de expressão oral e escrito. Petrópolis,
Vozes, 1977.
GARRAHER David W. Senso critico: do dia-a-dia às ciências humanas. S. Paulo,
Pioneira, 1983.
CUNHA, Celso. Gramática do português contemporâneo. Rio, Padrão, 1980.
CINTRA, L. F. Lindley. Nova gramática do português contemporâneo. Rio, Nova
Fronteira, 1985.
DIAS Augusto Epiphanio da Silva. Syntaxe histórica portuguesa. Lisboa,
Clássica, 1959.
ECO, Umberto. Como se faz uma tese em ciências humanas. Lisboa, Presença,
1982.
115
EHRLICH, Eugene. The Art of Technical Writing. Nova lorque, Thomas & Crowell
Company, 1964.
FAULSTICH, Enilde L. de J. Lexicologia: a linguagem do noticiário policial.
Brasília, Horizonte, 1980.
______ Estruturas simbólicas específicas e redundância no discurso. Letras &
letras. Uberlândia, Departamento de letras da Universidade de Uberlândia, v. 1, n.
2:107-121, 1985.
FOERSTER, Norman. Writing and Thinking. Cambridge, Massachusetts, 1952.
GARCIA, Othon M. Comunicação em prosa moderna. Rio, FGV, 1980.
LARI, Rodolfo - GERALDI, João Wanderley. Semântica. S. Paulo , Ática, 1985.
KOCH, Ingedore G. Villaça. Argumentação e linguagem. S. Paulo , Cortez, 1984.
LÓPEZ, Maria Luisa. Problemas y métodos en el análisis de preposiciones. Madri,
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MORENO, Cláudio - GUEDES, Paulo Coimbra. Curso básico de redação. S. Paulo ,
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PENTEADO, J. Roberto Whitaker. A técnica da comunicação humana. S. Paulo ,
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PERRIN, Porter G. Writer's Guide an Index to English. Chicago, Scott, Foresman
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ROCCO, Maria Thereza Fraga. Crise na linguagem: a redação no vestibular. S.
Paulo , Mestre Jou, 1981.
SALOMON, Délcio Vieira. Como fazer uma monografia. Belo Horizonte,
Interlivros, 1978.
SALVADOR, Angelo Domingos. Métodos e técnicas de pesquisa bibliográfica.
Porto Alegre, Sulina, 1977
116
SOARES, Magda Becker - CAMPOS, Edson Nascimento. Técnica de redação. Rio,
Ao livro técnico, 1978.
SODRE, Muniz - FERRARI, Maria Helena. Técnica de redação: o texto nos meios
de informação. Rio, Francisco Alves, 1977.
STARLING, José Nogueira - NASCIMENTO, Milton do - MOREIRA, Samuel. Língua
portuguesa: teoria e prática. Belo Horizonte, Vigília, 1978.
VANOYE, Francis. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e
escrita. S. Paulo , Martins Fontes, 1979.
VIVALDI, Gonzalo Martín. Curso de redacción. Madri, Paraninfo, XV edição.
WALDECK, Sérgio - PAIVA, M. Português/treinamento. Brasília, Pró-cultura, 1986.
FIM DO LIVRO












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